Começar, o quê?

As obras geométricas de Almada Negreiros não são geometria, tal como a entendemos hoje. São o resultado de uma procura filosófica de índole pitagórica e arcaica – não esqueçamos que arcaico vem de arkhé, a origem, a força primordial, o saber indizível que permanece vivo do alfa ao ómega.

«O saber é pouca coisa para quem conhece. O saber desencanta o mistério. O conhecimento vive cara a cara com o mistério.»

Almada Negreiros, In «Prefácio ao Livro de Qualquer Poeta»

Numa das célebres entrevistas ao nosso amigo António Valdemar, esta precisamente a 23 de Junho de 1960, Almada Negreiros afirma, «Diz um provérbio grego: “o deus faz a curva e o homem a direita”. (…) As relações do círculo inscrito e o quadrado são a mais remota mensagem da humanidade à humanidade. São a medida da relação humana.»

Na verdade, não é por acaso que nas representações de Deus como arquitecto, este porta um compasso e não um esquadro. Seja na Idade Média, seja na genial pintura de William Blake. A curva, o círculo, desenhadas pelo compasso, fala-nos das ideias, dos arquétipos, o espírito pode desenhar círculos e imprimi-los no mundo intermédio, no mundo da alma, ou psíquico. Cabe ao Homem, através da rectidão, trazer essa ideia-círculo ao quadrado da manifestação.

Estamos aqui em pleno pensamento pitagórico, e é dentro desse pensamento simbólico-numérico-geometrizante que poderemos entrar em ressonância com o pensamento e os conceitos que Almada Negreiros fez reflectir em algumas das suas obras de arte mais significativas da sua última fase, tais como a tapeçaria «O Número» (1958) e o painel «Começar» (1968) que se encontra no átrio da Fundação Calouste Gulbenkian.

José de Almada Negreiros na execução do painel “Começar”, Fundação Calouste Gulbenkian, 1968. Foto de autor desconhecido e pertencentes a coleção particular.

Neste pensamento de inspiração pitagórica os números, as relações e proporções, e as formas geométricas são símbolos, expressam ideias e demandam o mistério. A esta linguagem simbólica Almada Negreiros, inspirado numa citação de Francisco da Holanda, denominava «antegrafia», ou «antigrafia», ou seja, a antiga grafia, mais propriamente a grafia universal antes da emergência das línguas. E considerava que o redescobrir esta linguagem, que pode estabelecer pontes entre o pré-lógico e o lógico, seria fundamental para conhecer o mundo tal qual ele é, para além da exactidão do pensamento científico moderno. É necessário superar o exacto para chegar à perfeição, asseverava.

Portanto, as obras geométricas de Almada Negreiros não são geometria, tal como a entendemos hoje. São o resultado de uma procura filosófica de índole pitagórica e arcaica – não esqueçamos que arcaico vem de arkhé, a origem, a força primordial, o saber indizível que permanece vivo do alfa ao ómega.

Almada Negreiros, Começar, 1968-69, átrio de entrada, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa. Wikipedia

Tal como no caso de Lima de Freitas, estamos face a um filósofo-artista, ou artista-filósofo, pelo que não se poderá compreender o artista sem perscrutar o filósofo, nem compreender o filósofo sem indagar a sua alma artística.

Inspirado na citação do pintor romântico Eugène Delacroix, «O novo existe e pode mesmo dizer-se que é precisamente tudo o que há de mais antigo», Almada Negreiros, figura incontornável do modernismo português, estava continuadamente a exortar a necessidade de procurar a novidade do que é muito antigo. Podemos encontrar a síntese do seu pensamento filosófico na preciosa antologia «Ver» preparada por Lima de Freitas, publicada pela Arcádia, em 1982. As citações seguintes são desse volume.

«Agora podemos ter a certeza de que a especulação erudita nunca será bastante para iniciarmos o novo caminho. Falta-lhes a criação de hoje. Mas quem não tiver sido antigo ainda não pode ser novo hoje.»

Do livro Ver (p. 224) 

E antigo, para Almada, era muito ter a faculdade de contactar com a «origem», uma vez que a «novidade», é simplesmente uma nova leitura das origens, sutentava. Escutemos agora esta contudente reflexão antegráfica:

«Como poderemos então fazer comunicar ao homem de hoje a alegria do Homem que primeiro encontrou a diferença entre um traço em pé e outro deitado, entre dois traços em cruz e dois traços em X, ou entre um traço só e outro repetido? Não será aqui nestes traços que estão os sentidos do mundo, os principais? Não será nestes sentidos principais que seguem as relações infinitas entre os números certos do sagrado e do sensível? E que leitura pode fazer o homem de hoje, ignorante ou sábio, destes traços, os traços mais simples do mundo, quando a ciência deixou de ser sensível e sagrada para qualquer e não inicia ninguém, por se ter passado para progressiva, deixando as gerações em branco suspensas nas trevas? Que século será este em que vivemos e onde a Luz nos é procurada por outros como se fosse essa a que nos servisse?

Pois aqui tendes nestes traços, os traços mais simples do mundo, os documentos mais remotos do Homem, os originais. Ainda hoje ninguém os aprende a fazer; fá-los sem aprender. Vê-se que é o mesmo Homem do princípio. Mas qual é o de hoje que veja nestes traços o segredo da Ordem Universal?»

Do livro Ver (p. 124)

Ver é ver o invisível através do visível. E nos símbolos geométrico-numéricos, na aritmologia, da «antegrafia» estariam as chaves para um recomeço, uma re-criação da origem, revolare, fazer de novo o voo:

«A antegrafia, a palavra o diz, é anterior a toda a grafia. Assim mesmo a sua linguagem perpetua-se enquanto vão nascendo e morrendo os idiomas. (…)

Neste momento do mundo a humanidade perdeu novamente o seu instinto de conhecimento directo. Tudo quanto conhece é lido, tudo quanto vê é visto; por conseguinte, este conhecimento não é seu, já foi. É evidente que voltamos hoje, de novo, ao recomeço. Em vez de recomeço. Em vez de recomeço estaria aqui em seu legítimo lugar a palavra revolução no seu significado latino revolare: dar de novo a volta, fazer de novo o voo.»

Do livro Ver (p. 75)

Já temos aqui algumas pistas para a resposta ao porquê de Almada baptizar a sua última grande obra de «Começar».

BREVE ANÁLISE DO PAINEL «COMEÇAR»

«Dos Chaos ao Kosmos fui levado

                em horas

ainda antes da chegada da razão.»

Almada Negreiros, in “Cinco Canções Mágicas

Sentimos que este painel também se poderia baptizar por «momentos da passagem do caos ao cosmos», como se uma sinfonia de um dos grandes génios tal um Dvořák, se transformasse em andamentos geometrizantes. Há um claro dinamismo em que dois fluxos da direita e da esquerda convergem para a estrela pentagonal central.

À esquerda, encontramos uma enigmática inscrição citando Alain, pseudónimo do filósofo francês Émile-Auguste Chartier (1868-1951), «Kant m’apprit qu’il n’y a point de nombres, et qu’il faut faire les nombres chaque fois qu’il faut les penser.» Que poderemos traduzir como «Kant ensinou-me que não existem números, e que há que fazer os números de cada vez que os pensamos.» Que nos quererá dizer Almada com esta provocação? Vamos ler atentamente mais uma sua citação do Ver:

«E assim como a aritmética é anterior à geometria e à matemática, as figuras regulares e o Número são anteriores à aritmética. A ter uma designação do que tratamos aqui, seria talvez aritmologia mas com o que tem de “belo achado” e de sagrado esta palavra. (…)

Antes da aritmética não existe o dez, só há a Década. Antes do Cosmos está o Caos, mas antes da aritmética, da geometria e da matemática, está a passagem do Caos para o Cosmos e esta é feita pelo “belo achado do Número.»

Do livro Ver (p. 210-211)

«Deis-lhes o belo achado do número», é uma referência a Prometeu.

É nessa passagem do caos ao cosmos, ou se quisermos, na permanente tensão entre caos e cosmos, entre entropia e neguentropia, que deveremos sentir e abordar este testamento de Almada Negreiros, o neopitagórico solitário.

Aceitamos a divisão do painel em cinco partes proposta por João Furtado Coelho. De momento, o leitor pode seguir esta divisão nesta página da Gulbenkian da autoria de Pedro Freitas e Simão Palmeirim: 

Começar, painel completo (clicar na imagem para explorar o painel)

À esquerda na P1 encontramos um círculo, C1, inscrito no quadrado. Nos cantos dos quadrados, figurações de pequenos círculos vão evoluindo até encontrarmos no canto superior direito, a construção da vesica piscis, figura geométrica importante no neo pitagorismo de Almada, e no futuro, ainda mais em Lima de Freitas. Recordemos o que Almada escreveu sobre a relação do quadrado e do círculo:

«As relações do círculo inscrito e o quadrado são a mais remota mensagem da Humanidade à Humanidade. São a medida da relação humana. São a medida.»

DN, 23.6.1960
P1 – parte mais à esquerda do painel

No interior do círculo, encontramos a representação de uma estrela pentagonal regular a preto e geometrizações de outras duas, explorando a relação 9/10, muito importante para Almada. Almada ficou poderosamente impactado quando descobriu que o diâmetro de uma circunferência é igual a duas vezes a corda da nona parte da circunferência mais a corda da décima parte. Considera estar a resolver algo como a quadratura do círculo e a encontrar o verdadeiro cânone universal. As propriedades que encontra baseado nesta relação 9/10 são muito estimulantes e enigmáticas, porém esta sua equação dá um resultado muito próximo da realidade, mas não é exacto, a quadratura do círculo não se deixa geometrizar. Estas relações entre as cordas e os segmentos, entre a curva e a recta, suscitava naturalmente a pesquisa de Almada, cabe perguntar por que se esqueceu do Pi? Estudou muito o número de ouro, porém olvidou-se que uma das proporções mais importantes da matemática hermética é o Pi, o conversor da curva em recta, lá aparece na Grande Pirâmide conjugado com o Phi. 

Muito interessante também ir observando as cores no painel. Para além do preto e do branco, encontramos o vermelho que Almada relacionava com o elemento Terra, «os da Íliada como o sangue que corre nas lutas de terra fime», o azul que relacionava com o elemento Ar, «o ar por onde sobe o acanto para o Céu», e o amarelo beringela, «o fogo viaja amarelo como o Sol» (p. 199).

O verde que Almada relaciona com o da Odisseia, verde como o mar, elemento Água, curiosamente não aparece no painel.

Ainda neste P1, de dentro do círculo para fora, encontramos a amarelo e azul, os rectângulos geometrizados da raiz de Phi, da raiz de 2, e o próprio rectângulo dourado.

P2 – figura Supérflua Ex Errore

Passando para o P2, encontramos a Figura Superflua Ex errore atribuída a Leonardo da Vinci, gera um movimento incrível, tendo por base esta estrela-roda de dezasseis pontas, inscrita numa circunferência C2 (tem o duplo do diâmetro de C1). Volta a estar incorporado o rectângulo de ouro a azul. E, entre muitos detalhes significantes, note-se a recta que vai do canto inferior direito do quadrado P1 na direcção da parte central do painel, para nós P5. Outra recta, simétrica, quase que a intercepta, vindo da direita.

Consideramos que a parte central é o final, o êxtase da obra.

P3 – Ponto de Bauhütte

Vejamos então agora P3, ou seja, a parte mais à direita. O tema principal aqui representado é o Ponto da Bauhütte.

Almada ficou muito impressionado com a quadra popular descoberta por Ernest Mössel: 

Um ponto que está no círculo

E que se coloca no quadrado e no triângulo.

Conheces o ponto? Tudo vai bem.

Não conheces? Tudo está perdido.

Ernest Mössel

Estamos aqui, claramente, perante uma mensagem filosófica, que se deveria traduzir numa simbologia geométrica.

Filosoficamente, significará que aquele que ambiciona tornar-se um arquitecto pitagórico deve, antes, despertar para essa consciência que permite a ligação entre o todo (o círculo), a sua tríade divina, o eu-superior (o triângulo), e a sua personalidade, o seu eu pertencente à terra (o quadrado).

Ao nível geométrico Almada propõe um ponto que está no círculo, no quadrado, e no triângulo rectângulo 3-4-5. Muito interessante, a presença aqui do triângulo pitagórico; no Egipto antigo, representava a tríade Osíris-Ísis-Hórus. Sendo que Hórus como resultado da relação entre o 3 e o 4, era simbolizado pelo 5, esse mesmo 5 que é simbolizado pela estrela pentagonal que centraliza todo o painel. O círculo de P3 é o C1.

Já o círculo de P4 é o C2 (na realidade um semi-círculo), assim, se intermediam sempre os círculos C1 e C2 ao longo do painel (C1-C2-C1-C2-C1).

P4 – Labrys

Encontramos aqui no P4 todo um fulgurante movimento da direita para a esquerda, finalizando na representação da quarta parte de um machado duplo, do bipene, do labrys, que para Almada Negreiros era um símbolo da dupla presença, espírito-matéria, sagrado-sensível, etc. Refere a representação na civilização cretense, cultura fundamental, juntamente com a micénica, na origem da civilização ocidental.

P5 – Parte central

Chegamos então à apoteose, P5 na nossa leitura, a tripla estrela de cinco pontas como símbolo da realização humana, 

Emerge de uma rede dupla de 12 quadrados, cuja intersecção forma uma roseta de oito lados no centro. Repetem-se mais uma vez os rectângulos a azul, aqui como em P1, rectângulo da raiz de 3, da raiz de Phi, e o rectângulo dourado.

Em polissemia, Almada quis também fazer uma conexão com as raízes de Portugal, assim a estrela pentagonal é também uma referência ao primeiro dinheiro cunhado por D. Afonso Henriques, e, estilizados, também encontramos na estrela, a representação da cruz e da espada.

Finalizamos com um poema do próprio Almada, da Terceira Manhã.

Oh estrela do meu sonhar!

Sem a tua luz própria sem o teu distante cintilar

tão fixo lá do teu lugar

eu não podia achar aqui o sítio do meu mistério.

Aqui me tendes chegado

diante do meu próprio mistério.

Agora tudo é concorde e imenso

tudo se liga e se conclui.

Nada do que eu faço é ainda provisório

como ainda na minha meia vida de ontem,

a metade de espera da nova metade que vale por duas!

E tinha assim de ser:

eu jamais saberia de nada

senão através das minhas próprias dimensões,

senão à luz da minha estrela,

à luz da aurora do meu mistério

Que o pobre do mundo clama

para que desvendemos cada qual os nossos próprios mistérios!

Almada Negreiros, Terceira Manhã

Comecemos, então, a desvendar o nosso próprio mistério, libertando-nos das sombras das aparências de uma sociedade desgastada.

É necessário recriar, é necessário começar essa nova aventura, revolare.

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