Cosmos – Os Dez Dons do Demiurgo – Segunda Parte

5. Autossuficiência: Esta dádiva do Demiurgo tem uma importância moral e teológica, pois a autossuficiência é uma propriedade do que é bom e característico dos seres divinos.

“Quanto à totalidade da sua superfície externa, ela é rigorosamente polida e redonda, e isto por várias razões. Em primeiro lugar, na verdade, o mundo não tinha nenhuma necessidade de olhos, já que não havia nada visível fora dele, nem de ouvidos, já que também não havia nada audível. Não estava cercado de ar à sua volta que precisasse respirar. Também não precisava de órgãos, fosse para absorver alimentos, ou para expulsar o que anteriormente tinha assimilado. Pois nada poderia sair de dentro dele por nenhuma parte, e também nada poderia entrar nele, uma vez que não havia nada fora dele.

Na verdade, é o próprio mundo que fornece o alimento para a sua própria consumpção. Todas as suas paixões e todas as suas operações ocorrem nele, por si mesmo, de acordo com a intenção do seu autor. Pois, ele que o construiu pensou que seria melhor que fosse autossuficiente e não tivesse necessidade de nada. Não tinham para ele nenhuma utilidade as mãos, as quais não lhe seriam úteis, feitas para segurar ou afastar algo, e o artista pensou que não havia necessidade de dotá-lo com estes membros supérfluos, nem lhe eram úteis os pés, nem, em geral, nenhum órgão adaptado à marcha.” [Timeu, 33c-d]

6. Movimento Circular: O cosmos esférico move-se sobre o seu eixo. Este tipo de movimento é semelhante ao movimento do intelecto e à inteligência dos deuses celestes (sete planetas). O movimento rotativo está relacionado com a compreensão e reflexão, ou seja, a dialética.

“Deu-lhe, de facto, o movimento corporal que lhe convinha, aquele dos sete movimentos que está principalmente relacionado com o entendimento e a reflexão. Por esta razão, imprimindo sobre ele uma revolução uniforme no mesmo lugar, fez com que se movesse com uma rotação circular, e privou-o dos outros seis movimentos e impediu-o, assim, de se mover errante por entre eles.

Este foi, portanto, no seu conjunto, o cálculo feito pelo o Deus que está sempre olhando para o Deus que deveria nascer um dia. Em virtude desse cálculo, fez dele um corpo belo, totalmente homogéneo, igual em todas as suas partes desde o seu centro, um corpo completo, perfeito, composto de corpos perfeitos.” [Timeu, 31a]

Criação do sol, lua e planetas, Michelangelo. Domínio Público

7. O Ser Vivo: O corpo do cosmos está animado por uma alma divina.

O Cosmos tem que ser belo, e, como não pode haver algo belo sem inteligência/entendimento, e não pode haver algo inteligente sem alma, ele colocou a inteligência na alma, e a alma no corpo. Quanto à alma do mundo, Deus colocou-a no centro, e, a partir daí, ele espalhou-a por toda parte, envolvendo com ela o mundo inteiro. Como consequência, o cosmos é um ser vivo, provido de uma alma e de um entendimento, pela providência de Deus.

“No que diz respeito à Alma, tendo-a colocado no centro do corpo do mundo, fez que se estendesse por todo ele e chegasse até mais além dele, e o envolvesse. Assim, formou um céu circular, único, solitário, capaz de existir em si mesmo pela sua própria virtude, não precisando de mais nada, mas apenas de se conhecer e se amar a si mesmo suficientemente. Por todos esses meios, Deus o engendrou feliz.

Esta alma de que agora falamos, logo depois de ter falado do corpo, foi formada ao mesmo tempo que o corpo, o Deus não a formou, no seu mecanismo, numa data mais recente do que o corpo.” [Timeu, 34b-c]

8. Relação Eternidade – Tempo: A natureza da alma é trabalhar através do tempo; ela conhece todas as coisas, mas apenas parcialmente, e para conhecer, deve progredir no tempo de forma diferente da mente (nous, espírito). O cosmos move-se e vive, e esse movimento realiza-se no tempo, que é a imagem móvel da eternidade. Assim, como este mundo visível foi feito à imagem do mundo ideal, que é o seu modelo eterno, o mesmo acontece com este tempo: foi feito com o mundo à semelhança da eternidade.

O eterno e imutável é, nunca foi engendrado, nunca sofre mudanças, não tem nem passado nem futuro. O tempo, como tal, está vinculado à mudança, e, de certa forma, é a medida de todas as mudanças e mutações. Existir, devir, mudar, nascer, perecer são termos que devem ser reservados ao que nasce, progride e é aperfeiçoado no tempo e pelo tempo. Sendo o princípio da unidade, o tempo comanda o cosmos e o conhecimento da alma humana, dando coesão, continuidade e persistência. Conhecemos, pensamos e expressamo-nos dentro do tempo.

“Quando o pai que tinha engendrado o mundo compreendeu que se movia e vivia, feito à imagem nascida dos deuses eternos, ele se alegrou e, na sua alegria, pensou nos meios para faze-lo ainda mais semelhante ao seu modelo. E, assim, como esse modelo é um vivente eterno, esforçou-se, na medida do seu poder, para fazer esse mesmo Todo igualmente eterno. Então, o que na realidade era eterno, como vimos, era a substância do modelo vivente, e era impossível adaptar inteiramente essa eternidade a um mundo gerado. Por essa razão, o seu autor teve o cuidado de fazer uma espécie de imitação móvel da eternidade e, enquanto organizava o céu, fez, à semelhança da eternidade imóvel e una, essa imagem eterna que progride de acordo com as leis dos números, o que chamamos de tempo.

Resumidamente, então, o tempo nasceu com o céu, de modo que, nascidos no mesmo ato, se dissolverão também ao mesmo tempo, se alguma vez se dissolverem, e isso foi feito sobre o modelo da substância eterna, de modo que a ela se assemelhe, tanto quanto possível, de acordo com a sua capacidade. Porque o Modelo é para ser por toda a eternidade, e o céu, pelo contrário, desde o início e durante toda a duração, foi, é, e será.” [Timeu, 37d-38c]

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Manuscrito do Timeu, tradução para latim de Calcídio (Séc. X). Domínio Púlico

9. Os seres celestes: o Sol, a Lua e os cinco principais planetas, são meios através dos quais se manifestam os ciclos do tempo (entre outros, e o ciclo mais importante – o ano platónico). Todos os planetas e estrelas são seres vivos e pensantes. Existem outras forças divinas, visíveis e invisíveis (por exemplo, os daemons vivem e regem cada um dos elementos).

“Em virtude deste raciocínio e desta intenção divina que fazem referência ao nascimento do tempo, o Sol, a Lua e as outras cinco estrelas, às quais damos o nome de planetas, nasceram para definir os números do tempo e garantir a sua conservação. Uma vez formado o corpo de cada um deles, o Deus os colocou, em número de sete, nas sete órbitas que descreve a substância do Outro.

No entanto, não é impossível conceber que o número perfeito do tempo tenha cumprido o ano perfeito, quando as oito revoluções, tendo chegado a igualar as suas velocidades, regressam ao ponto inicial e dão como medida comum a essas velocidades o círculo do Mesmo, que possui um movimento uniforme.

Desta maneira e por estes motivos foram produzidos esses astros que viajam pelo céu e que têm fases. Ou seja, para que o mundo possa ser o mais semelhante possível ao vivente perfeito e inteligível, e imitar a substância eterna.” [Timeu, 38d-39d]

10. Plenitude e perfeição: O cosmos, para obter a semelhança perfeita do seu paradigma eterno e vivo, deve conter quatro tipos de seres vivos: celestes, aéreos, aquáticos e terrestres. O Deus, na sua função de Pai do universo, criou vários tipos de seres divinos. Os seres divinos e imortais, imitando o Demiurgo, criaram as três espécies mortais, que habitam o ar, a água e a terra. Os deuses formaram o homem da terra, do fogo, do ar e da água, tomando emprestado do cosmos uma certa parte desses elementos, que, um dia, devem ser devolvidos. A alma humana, como todas as almas imortais, foi formada pelo demiurgo com uma composição semelhante à da alma cósmica.

Portanto, nenhuma parte do mundo está privada da alma nem de seres vivos mortais e imortais. Assim, o cosmos contém todas as espécies vivas e é absolutamente perfeito e semelhante ao seu paradigma eterno.

“Ora bem: todo o resto, até o nascimento do tempo, tinha sido feito à semelhança deste modelo ao qual se parecia. Mas o mundo ainda não continha todos os seres vivos que nasceriam nele e por isso a sua semelhança com o Modelo ainda não era absolutamente perfeita. O que faltava da sua obra, portanto, o Deus o realizou e reproduziu a natureza do modelo.

… Logo: há quatro destas espécies ou classes: a primeira é a espécie dos deuses, a segunda é a espécie alada que se move pelo ar, a terceira é a espécie aquática e a quarta é a que vive na terra e caminha.

No que respeita à espécie divina, em primeiro lugar o Deus modelou a sua estrutura, na sua maior parte de fogo, de modo que seria a mais brilhante e a mais bela à vista e, formando-a à imitação do Todo, deu-lhe uma forma bem arredondada.” [Timeu, 39e-40a].

“Dos viventes divinos, o próprio Deus tem sido o artesão. E ordenou que a sua própria prole se preocupasse em garantir a produção da vida mortal. [Timeu, 69d].

Através da década dos dons, o demiurgo completa a criação do cosmos.

O cosmos é, portanto, um ser sensível, uma cópia do ser inteligível; mas ele é também um Deus visível, cópia do Deus inteligível ou demiurgo. Assim, o universo, enquanto “vivente”, é cópia do ser inteligível, e, enquanto “Deus sensível”, é uma cópia do demiurgo.

“E com isso afirmamos agora ter chegado ao fim da nossa dissertação sobre o mundo. Tendo admitido em si mesmo todos os vivos mortais e imortais, e completado com isso na sua totalidade, o Vivente visível que envolve e encerra todos os seres visíveis, Deus sensível formado à semelhança do Deus inteligível, muito grande, muito bom, muito belo e muito perfeito, o mundo nasceu: do céu, que é único e só na sua classe.” [Timeu, 92e]

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