Fernando Pessoa, elementos de matemática sagrada

O mundo numérico é regido pelos deuses; isto é em relação ao mundo que concebemos, o politeísmo é a Verdade. Não há o direito a ter outra religião a não ser o politeísmo.

Este texto demonstra o interesse de Fernando Pessoa pela Matemática Sagrada, no sentido profundo entre os números e suas relações, na razão que os governa e no plano de existência (ou talvez melhor, de não-existência, porque o que verdadeiramente “existe” na rede de Maya são sombras, as suas sombras) em que são ideias, princípios puros.

 As reflexões de Fernando Pessoa são um pouco confusas pois de toda maneira, não nos é fácil fazermos perguntas desta natureza sem cair em excentricidades, ou sem cair no feitiço das palavras, que em vez de nos ajudar nos confunde, pois já não nos falam de nada que vejamos ou percebamos com os sentidos, e não as palavras das Línguas Sagradas a que se referem claramente estes temas.

Int[rodução]: Ocultismo

Os 3 mundos: o mundo causal, o mundo intelectual e o mundo numérico.

A realidade do mundo «material» (tomado este adjectivo na mais lata das acepções) depende do Número. Neste mundo – resultado somos, todos os entes, meros números.

Mas os números têm uma lógica, uma razão. Nada mais pressupõem. (Nem sequer pressupõem a consciência deles). Mas os números têm uma ordem. Por isso, acima dos números está a razão dos números. Essa razão é de todo interior aos números. Apenas a concebemos por aquele fenómeno passado entre os números, a que se chama a Lei.

Mas essa razão deve ter uma origem, uma causa.

Acima, portanto, do próprio mundo racional está o mundo causal.

O mundo numérico é regido pelos deuses; isto é em relação ao mundo que concebemos, o politeísmo é a Verdade. Não há o direito a ter outra religião a não ser o politeísmo.

No mundo racional já não há deuses, ou antes, esse mundo está acima dos deuses. Esse mundo não é real; isto é, nada há em nós que permita afirmar a sua existência. Nem se pode dizer, é; porque o ser, a realidade são categorias do Número.

Portanto, esse mundo racional não pode ser atingido ou pelos sentidos que ensinam a ideia de Realidade, ou pela razão , que ensina a ideia de Lei , ou pela Consciência, que ensina a ideia de Ser. Nenhuma faculdade nossa, nenhum modo de percepção imaginável, nos pode levar até ao mundo racional; o mais que podemos é ver o seu reflexo entre os números. Porque há (1) números , (2) relações entre os números (reflexo da Razão); (3) existência (abstracta) de números e relações entre eles, porque o que há de comum entre os números e as suas relações é serem «coisas» que existem. s.d.

Textos Filosóficos . Vol. II. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968. – 63.

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