Leibniz, o I Ching e o sistema binário – 2ª parte

Concluo este trabalho com a sensação de que apenas rocei, em tão pouco tempo e tão poucas páginas, o pequeno mistério da obra de Leibniz e do grande impacto dos seus conceitos no nosso mundo. Esta percepção é real, pois sabemos que, com mais tempo dedicado à investigação e mais reflexão, os fios invisíveis que aqui se vislumbram poderiam abrir-se infinitamente, como acontece com qualquer ponto da Vida que investiguemos.

Leia aqui a primeira parte do artigo

O Sistema Binário e o I Ching

No que diz respeito à China, Bouvet tornou-se no correspondente mais importante de Leibniz. Em 15 de fevereiro de 1701, o filósofo escreveu ao sacerdote uma longa carta em que expôs as suas teorias sobre o sistema binário e demonstrou a praticidade e as possibilidades desta sua invenção, exemplificando-a e colocando esses conhecimentos ao serviço do monarca chinês como “moeda de troca” no intercâmbio de conhecimentos entre a Europa e a Ásia. A audácia é tão grande que vale a pena ler as próprias palavras que Leibniz escreveu na carta, concluindo as suas explicações:

Mas o meu objectivo principal, meu Reverendo Padre, era proporcionar uma nova confirmação da religião cristã em relação ao sublime tema da criação numa base que, na minha opinião, terá um grande peso para os filósofos da China e talvez até para o próprio imperador, que ama e entende a ciência dos números. Dizer que os números são formados pelas combinações da unidade com nada, e que o nada é suficiente para os diversificar, parece tão credível como dizer que Deus criou todas as coisas a partir do nada, sem usar nenhuma matéria positiva, e que apenas existem estes dois primeiros princípios, Deus e Nada: Deus de perfeições, e o Nada de imperfeições ou vazios de essência. E se for fornecida a origem da invenção deste cálculo (que vem da analogia da progressão binária com o denário) a coisa parecerá ainda mais admirável. Talvez este grande monarca não se importe que um europeu das suas relações, que está infinitamente interessado no que diz respeito à China e ao seu comércio de conhecimento com a Europa, fez esta descoberta e a enviou expressamente para consagrá-lo a Sua Majestade.(…)

E será uma circunstância excepcional para mim ser director da sociedade científica deste príncipe, que poderá ser valiosa para si na necessidade de proporcionar algum exterior ou aparência a esta invenção numérica para apresentá-la ao Imperador e fazer com que a admire ainda mais.

O breve trecho apresentado acima não cobre a totalidade desta longa carta, principalmente porque é precedido por uma extensa demonstração do sistema binário, recém inventado por Leibniz. No entanto, parece suficiente salientar a riqueza da relação entre Leibniz e o pensamento chinês e, mais do que isso, a profunda relação entre este pensador já maduro e aquele que parece agora agir como seu professor, Joaquim Bouvet. A resposta do interlocutor em carta fechada datada de 4 de novembro de 1701, indica ou um teatro prodigioso que esconde outras correspondências ou diálogos que teriam levado Leibniz a desenvolver o sistema binário através da meditação sobre os trigramas e duplos conjuntos destes (hexagramas) do I Ching tradicional, ou então demonstra a extraordinária intuição de uma alma resgatando uma tradição e adaptando-a não à realidade do seu momento, mas sim ao futuro. Bouvet diz, justificando a sua surpresa e gratidão pela carta do discípulo:

… mas ainda devido à maravilhosa relação que julgo que os seus princípios têm com aqueles sobre os quais se fundou a ciência dos números dos antigos chineses bem como as outras ciências cujo conhecimento se perdeu, entre outras a física, ou a ciência que ensina os princípios e as causas da geração e corrupção de todas as coisas. Os antigos sábios da China encontraram nela a mesma analogia presente nos números, nos quais se baseou toda esta ciência em um sistema que não é de forma alguma diferente da sua tabela numérica, que você estabelece como base do seu cálculo numérico. Nela passa, como os chineses, da geração de números para a produção das coisas, mantendo a mesma analogia na explicação de ambas.

Bouvet continua a carta, após tecer as suas considerações à invenção do seu interlocutor, e dá as chaves para que Leibniz encontre a relação completa entre o sistema binário e o I Ching:

Além disso, aqui falo apenas da tabela numérica em que colocou a dupla progressão aritmética, que os chineses consideram como sendo a mais simples de todas e a que contém a harmonia mais perfeita. E para mostrar-lhe, Senhor, que a tabela é a mesma, sem qualquer alteração, que o sistema de gua [i.e. 卦] ou pequenas linhas do Príncipe dos Filósofos da China, isto é, Fo-Hii [Fuxi], peço-lhe três coisas que certamente me concederá sem dificuldade:

1º Peço que continue (…) a sua tabela até ao 6º grau da mesma progressão, isto é até ao número 64, (…). A sua tabela, com este aumento de grau da dupla progressão irá ser aumentada pela metade, então pedir-lhe-ei o seguinte:

2º Assuma que todos os zeros que representam a imagem do nada ou as imperfeições são modificados para tantos | interrompidos quantos sejam necessários conforme se vê neste parêntesis (¦) e que toda a tabela seja composta apenas de pequenas linhas inteiras e interrompidas conforme Foo-Hii. Após esta suposição, peço ainda:

3º Divida a sua tabela em duas metades, cada uma com 32 filas de 6 pequenas linhas inteiras ou divididas e disponha-as em duas colunas, de forma a que os seus extremos que se tocavam antes da divisão estejam na posição oposta. Faça com que estas duas colunas numéricas se dobrem uma sobre a outra de forma a que os dois extremos superiores se unam, bem como os dois extremos inferiores. Depois compare esta figura com a figura circular chinesa que vos envio e vede se notais alguma diferença e se não descobris nela toda essa maravilhosa harmonia que se encontra na vossa tabela.

Foi necessária demasiada imaginação para visualizar a imagem enviada em anexo à carta, como um presente de Bouvet a Leibniz? Aqui está:

Diagrama de hexagramas I Ching pertencente a G.W. Leibniz

A correspondência não se deteve e é muito o que se desenvolve nas cartas subsequentes, não apenas sobre as relações entre o I Ching e o sistema binário, mas também sobre uma série de outros temas, entre os quais a importância que os interlocutores atribuíram ao diálogo entre as tradições europeia e chinesa, que previram poder vir a ser mediado pela Rússia, geograficamente central e fundamental para esse intercâmbio.

As cartas de Bouvet também demonstram um grande entusiasmo na procura de relações entre outras culturas e a defesa firme da origem única de ambas as tradições. Evidentemente, o contacto com a tradição chinesa e as teorias de Bouvet estimularam, confirmaram ou forneceram a Leibniz elementos para muitas das suas teorias.

E não foi apenas através da correspondência que Leibniz teve acesso a tal conhecimento: foi uma especial revelação o contacto que teve com a tradução latina do I Ching, realizada pelo padre Jean-Baptiste Regis. Consta que a versão traduzida remonta ao tempo da dinastia Zhou (1122-2 a.C.), sendo considerado o único manual chinês de “adivinhação” que chegou aos nossos dias. O padre Bouvet era especialista na “teoria figurativa”, que via um terreno comum entre o I Ching e a Bíblia. Esta interpretação fez com que os hexagramas, longe da superstição, constituíssem símbolos de valor universal criados por um génio extraordinário para servir como chave de acesso a todas as ciências.

Juntando às notas do padre Bouvet as reflexões sore a tradução latina do I Ching, Leibniz concluiu que o sistema binário que fora desenvolvendo tinha grandes afinidades com o antigo livro chinês. É notável que desde então Leibniz nunca se tenha proclamado como seu inventor, mas sim o descobridor de um sistema milenar que na China remontaria ao Período Chou (1027-2 a.C.) e na Índia ao século 3 a.C., quando fora descrito pelo matemático Pingala.

Mas não foi apenas na matemática que se prendeu o interesse de Leibniz no I Ching: aplicando as mesmas premissas à Metafísica, o sistema binário foi também utilizado para interpretar a criação do Universo a partir de um e nada, de acordo com a cosmologia chinesa, e encontrará desenvolvimentos filosóficos nas suas obras “Ensaios de Teodiceia, sobre a bondade de Deus, a liberdade do homem e a origem do mal” (1710) e “A Monadologia” (1714).

Precisamente neste último trabalho encontramos as complexas concepções de Leibniz sobre a unidade e potencialidade de cada fragmento do Universo, como explica Helena Blavatsky nos seus comentários sobre Estância V (A Doutrina Secreta vol. I):

… porque cada átomo no Universo possui em si mesmo a potencialidade da própria consciência e é, como as Mónadas de Leibniz, um Universo em si mesmo e por si mesmo.

É também na Doutrina Secreta (Vol. II) que encontramos H. P. Blavatsky esclarecendo a capacidade intuitiva de Leibniz, antes de demonstrar de que forma as suas teorias, somadas às de Espinosa, incluem de forma complementar um pano de fundo à Filosofia Esotérica (que não se consegue através das concepções individuais de cada autor):

As investigações matemáticas e dinâmicas de Leibniz não teriam levado ao mesmo resultado na mente de um investigador puramente científico. Mas Leibniz não era um homem científico na acepção moderna do termo. Se o fosse, teria desenvolvido o conceito de energia; teria definido matematicamente as ideias de força e trabalho mecânico e teria chegado à conclusão de que, até para fins puramente científicos, é apropriado considerar a força, não como uma grandeza primária, mas como uma grandeza derivada de algum outro valor.

Mas, felizmente para a verdade:

Leibniz era um filósofo; como tal tinha certos princípios fundamentais, que o inclinavam na direcção de certas conclusões; e a sua descoberta de que as coisas externas eram substâncias dotadas de força, foi utilizada naturalmente com o objectivo de aplicar tais princípios. Uma delas era a lei da continuidade, a convicção de que o mundo inteiro estaria interligado, de que não haveria vazios nem brechas sobre os quais se poderia construir uma ponte. O contraste das substâncias externas do pensamento parecia-lhe insuportável. A definição das substâncias extensivas já se tinha tornado insustentável: era natural que se fizesse uma investigação semelhante sobre a definição da mente, a substância pensadora.

Isto corrobora a síntese elaborada por Donald F. Lach, num espaço dedicado a Leibniz, sobre o que a China representaria para o grande filósofo alemão1:

Não considerava a filosofia chinesa como uma forma estranha de pensar, mas simplesmente como a contrapartida da sua própria Monadologia e da religião cristã. Na sua análise dos trigramas do I Ching, não só procurava outra descoberta matemática: também esperava demonstrar que os antigos chineses eram um povo lógico e muito inteligente. Pelo menos durante algum tempo, considerou a língua chinesa como uma possibilidade na sua procura de uma língua filosófica universal. Além disso, ao tratar temas históricos, reconheceu a necessidade de estudar a história chinesa se se pretendesse compreender plenamente o desenvolvimento da humanidade. No seu grande projecto de civilização universal, apresentou a China e a Europa, geograficamente opostas, como aliadas intelectuais.

Conclusão

Temos vindo a falar de uma das muitas figuras que viveram este momento histórico tão rico e misterioso. O nosso mundo, inclusive a sua decadência, são em grande parte resultado dos resíduos deste processo, dos seus êxitos e erros. Entre o Renascimento que previu no discurso de Pico della Mirandola o surgimento de uma Doutrina Secreta capaz de apresentar a origem única e o destino da fraternidade universal e espiritual de todos os saberes, e a sua realização séculos mais tarde, pela pena de H. P. Blavatsky, há um universo de obra humana, discipular e verdadeiramente espiritual, do qual cada figura e processo que possamos investigar representa apenas uma pequena partícula. Concluo este trabalho com a sensação de que apenas rocei, em tão pouco tempo e tão poucas páginas, o pequeno mistério da obra de Leibniz e do grande impacto dos seus conceitos no nosso mundo. Esta percepção é real, pois sabemos que, com mais tempo dedicado à investigação e mais reflexão, os fios invisíveis que aqui se vislumbram poderiam abrir-se infinitamente, como acontece com qualquer ponto da Vida que investiguemos.

O envio dos padres cientistas pelo rei Luís XIV (a impressionante e incompreendida figura do “Rei Sol”) à China, a audácia de Leibniz não apenas em submergir-se nos temas chineses e escrever sobre eles, mas também ao posicionar-se a favor de uma origem comum para ambas as tradições, ao procurar soluções baseadas no conhecimento ao invés dos conflitos teológicos, ao propor inteligentemente a reunificação das Igrejas, a dimensão enciclopédica e universal da sua obra (da qual pouco ou nada se falou nesta monografia) e os inúmeros correspondentes com que manteve contacto, nomes praticamente esquecidos e dos quais pouco ou nada se sabe, mas que tanto contribuíram para a sua obra, não deixam de intrigar-me e de impulsionar o desejo de entender mais, de mergulhar mais profundamente na História e, fundamentalmente, nos seus Motores Ocultos…

Não será abusivo, em forma de conclusão deste breve trabalho, voltar a citar as palavras do padre Bouvet que parecem indicar perspectivas do futuro. Esta capacidade de reconhecer as possibilidades de florescimento de antigas “sementes do futuro” leva-me a questionar-me, ou mesmo a intuir, quem eram os mestres de Leibniz e qual seria a sua verdadeira missão:

Esta figura é uma das duas figuras do Fo-Hii, que através da admirável arte de uma ciência consumada (à que você parece levar por bom caminho para a devolver aos homens, que a perderam há mais de trinta ou quarenta séculos) poderá ter contido sob dois símbolos gerais e mágicos os princípios de todas as ciências e da verdadeira sabedoria.

(…)

.. “hi” significa vítimas, termo que demonstra que Fo Hi era um Sacrificador ou sumo sacerdote e era ele quem regulava a ordem dos sacrifícios e do culto religioso. Além do seu nome comum, nos livros é-lhe atribuído o título de Taï-hao, que significa muito grande e três vezes grande ou Trismegisto.

No final, como sempre acontece quando observamos as coisas como discípulos, a partir de uma investigação iniciada sem qualquer pretensão, acabamos por tocar um pouco o mistério…


Apêndice I – Leibniz e a Sociedade Rosacruz

A participação de Leibniz na Sociedade Rosacruz nessa altura é um assunto sempre sugerido, valorizado ao máximo por esoteristas e pseudo-esoteristas e frequentemente negado por aqueles que não têm interesse em tal relação. Sabemos que a Sociedade Rosacruz teve, na época de Leibniz e no século seguinte, uma grande influência em pensadores de diversas áreas e que, adaptada a diferentes lugares e nomes, se propagou amplamente por toda a Europa, reunindo entre os seus áugures cientistas, filósofos, artistas e políticos de renome.

Tendo em conta que as afirmações na esfera esotérica frequentemente carecem de fontes, considero apropriado apresentar três fontes académicas sérias e suas considerações sobre o assunto:

Giovanni Reale e Dante Antiseri

Na sua História da Filosofia, no volume dedicado à Idade Moderna, estes reconhecidos autores italianos dizem:

Tendo entrado na associação Rosi-cruz (uma espécie de sociedade secreta com doutrinas de fundação mística, filantrópica e utópica, na linha daquilo que mais tarde será a Maçonaria), pode (através do barão von Boineburg) ter sido introduzido na corte do Eleitor de Mainz, a partir de 1668.

A citação carece de nota ou de referência bibliográfica, reproduzindo um argumento aceite em algumas linhas biográficas.

Tessa Moura Lacerda

Apesar da sua popularidade como activista política, a professora da USP [Universidade de São Paulo] é reconhecida como a primeira estagiária Leibniz no Brasil, isto é, cumpre o papel da primeira investigadora brasileira a dedicar a sua vida académica ao estudo deste pensador. São suas a apresentação e as notas da obra Discurso da metafísica e outros textos, publicada no Brasil pela editora Martins Fontes. Entre estas, uma cronologia muito didática sobre a vida e a época de Leibniz. É nesta cronologia que encontramos, no ano 1666:

… Junta-se a uma sociedade secreta de partes interessadas na alquimia, na qual será secretário durante dois anos.

Frances Amelia Yates

O importantíssimo historiador inglês, especialista no Renascimento, Giordano Bruno e Iluminismo Rosacruz, é quem melhor apresenta o contexto, assim como a dúvida sobre a participação de Leibniz na Sociedade:

Embora a Societas Christiana2 tivesse um final tão triste com a deflagração da guerra, o seu rasto não se perdeu. Aproximadamente em 1628, Andreae tentou reorganizá-la em Nuremberga e talvez o tenha conseguido, já que nos anos seguintes Leibniz conheceria as ideias de Rosacruz provavelmente devido à sobrevivência desta ramificação. Correu de forma persistente o rumor de que Leibniz se unira a uma sociedade de Rosacruz em Nuremberga em 1666 e existe um relatório mais fiável de que Leibniz saberia bem que a irmandade Rosacruz era uma ficção e que isto havia sido dito por “Helmont”. (Provavelmente uma alusão a Franciscus Mercurius van Helmont). No entanto, o conhecimento de que seria uma “piada” certamente não impediu que Leibniz absorvesse algumas das ideias subjacentes como certamente aconteceu. Já assinalámos noutra parte que as regras da Ordem da Caridade, cuja fundação fora proposta por Leibniz, são citações praticamente directas de extractos de Fama. Além disso, nas obras de Leibniz existe muito material para prosseguir o estudo da influência que tiveram sobre ele certas ideias derivadas dos movimentos promovidos por Andreae, porém essa referência fragmentada é tudo o que poderemos aqui fazer.3

Yates deixa bastante claro que acreditava efectivamente na participação de Leibniz na Sociedade e na influência que dela recebeu. Conhecendo a forma de trabalhar do autor, é notável que a sua característica evite falar de forma definitiva daquilo que é evidente, no entanto, ainda não se pode confirmar, precisamente para se manter no rigor da investigação académica, bem como para se proteger dos ataques dos seus críticos.

De qualquer forma, a Sociedade Rosacruz não foi certamente a única fonte de onde Leibniz bebeu as vívidas águas do esoterismo, já que é no seu contacto com a cultura e com a tradição chinesas que encontramos as marcas mais significativas no seu pensamento filosófico, teológico, ético e científico.

Apêndice II – Carta a Leibniz

Estimado Sr. Leibniz, 

Escrevo-lhe do século XXI. Passou muito tempo desde que trabalhou neste mundo, imerso nos sonhos de uma civilização e uma língua universais, ansiando pela fraternidade universal, no seu tempo vislumbrada pela reunificação da Igreja e o diálogo entre a Europa e a China.

Devo dizer-lhe que a sua descoberta, ou redescoberta, do sistema binário, permitiu à nossa humanidade alcançar níveis de tecnologia e conhecimento que, na sua época teriam sido dignas de espanto e teriam feito suspirar qualquer inquisidor por poder lançar os nossos cientistas e técnicos às fogueiras, tal é a “magia” que faz operar as nossas máquinas. Sim, graças ao seu sistema…

Acontece que, após a sua invenção (a máquina de calcular) e os projectos com ela relacionados, que não pôde executar, a simplificação do cálculo fez-nos evoluir muito… pelo menos em termos tecnológicos. Tomou os aspectos facilmente aplicáveis das suas teorias e métodos, mas descartou em grande parte as suas concepções humanistas e metafísicas. Não se surpreenda. Conhece bem a história, e desde Sócrates e o seu amado Platão até Giordano Bruno e o próprio [Raimundo] Lullo (a quem não deixou de criticar), a humanidade continua a manter certos vícios e maus hábitos, e um destes é precisamente o de aproveitar o conhecimento de forma parcial, descartando tudo o que o exige em termos humanos.

Na sua defesa, uma extraordinária senhora dedicou-lhe algumas páginas, explicando o núcleo das suas teorias e demonstrando como a relação complementar entre o seu pensamento e o do seu contemporâneo (e creio que seu irmão espiritual) Espinoza transparece de forma fundamental aquilo que chamamos de Filosofia Esotérica. Ficou conhecida como Madame Blavatsky e o seu nome apareceu pelo menos 64 vezes na sua obra monumental, a Doutrina Secreta.

Já nos nossos dias, no nosso mundo, mais populoso, ruidoso e poluído do que se possa imaginar, um e outro entusiasta dedicam-se à sua obra, a trazer à luz a importância que deu à cultura chinesa, a traduzir algumas das suas cartas.

Devo dizer-lhe que, lamentavelmente, a nossa ansiedade pelo conforto – e não sei o que mais precisaremos de experienciar como humanidade – levou-nos a inverter as regras do jogo. Concebeu a máquina de calcular, através do sistema binário, como uma libertação do jugo do tempo: poderíamos ficar libertos para a contemplação e os trabalhos úteis, enquanto as máquinas fariam o trabalho mecânico. Não só aplicámos esta lógica, como também mais tarde a aplicámos a um sistema electrónico. As máquinas, graças ao seu sistema, quase pensam por si próprias e a tecnologia desenvolvida é tão grande que, se uma carta escrita por si ao padre Bouvet se produzisse hoje, a sua correspondência demoraria menos de um segundo a chegar-lhe, onde quer que se encontrasse. E mais ainda: poderíeis falar entre vós, vendo-vos e escutando-vos através de uns aparelhos que inventámos com base no seu sistema. E poderia enviar-lhe imagens nítidas, em tempo real, das paisagens chinesas e dos seus livros. Parece fantástico, não é verdade?

Lamentavelmente, nem tanto. Graças a esta tecnologia nunca teríamos tido acesso a tantos conhecimentos e de certa forma existe uma linguagem universal. Mas reduziu-se ao ser humano comum, visa mais os interesses particulares que os universais. Há muita gente boa que o utiliza para o bem, mas a quantidade de pessoas que o utiliza para a sua mera satisfação e benefício é muito superior.

Além disso, a rapidez com que podemos comunicar-nos permite-nos saber o que acontece em tempo real em qualquer parte do mundo… ou não! Ninguém previu que tal nos levaria a uma tormenta de informação e consequentemente a sistemas de manipulação. Os que possuem a “chave universal” estruturaram a “inteligência das máquinas” reduzindo-nos a algumas pesquisas de interesses. Basta que alguém faça 500 ou 600 breves pesquisas para que o seu perfil fique traçado para sempre. E como praticamente toda a nossa vida está agora condicionada por estes dispositivos (estudos, aquisições, informação, entretenimento, etc.) acabamos por nos condicionar por estas métricas. Não, não é a chave universal que tinha sonhado!

Há outra curiosidade: a China é agora uma potência mundial. Milhares de ocidentais falam chinês e isso demonstrou que a sua intuição estava correcta: não era a língua universal do futuro, mesmo que a considerasse naquele momento. Além disso, desde a sua partida até hoje, a nossa humanidade foi assolada por inúmeras guerras e expansões, e o mundo já não é como o conhecera. Falo do Brasil, recorda esse nome? Mais do que navegações, hoje em dia voamos! E os submarinos que projectou transitam pelas profundidades dos oceanos. Muitos em busca de conhecimentos, mas a maior parte com fins bélicos.

O que é curioso é que as estratégias já não têm cabimento, tal como pensara aliviar a tensão com a França. As coisas são tão estranhas que vivemos em guerra constante, seja com as armas ou com a informação e as pessoas enlouqueceram sem que nos apercebêssemos. O mundo tornou-se mais perigoso do que nunca. Já agora, e desculpe que o diga… foi precisamente devido a um dos capítulos mais tristes da nossa história, a chamada Segunda Guerra Mundial, que o seu sistema foi ricamente explorado e, ainda que tenha servido para livrar-nos dessa guerra, também nos serviu para chegarmos a essa evolução tecnológica de que falou e que nos encantou.

A ciência não se preocupou muito com o conhecimento, é mais tecnologia do que ciência. A arte (tema ao qual curiosamente não se dedicou) em geral não se compromete nem com a Beleza nem com as ideias. Não vou contar nada sobre política, pois, salvo raras excepções, vivemos em diferentes tipos de tirania em todo o mundo, ainda que ninguém queira chamar isso aos nossos “sistemas” de governo. A Igreja não se reunificou, pelo contrário, fragmentou-se ainda mais e hoje, na maior parte das vezes, falar de religião parece mais uma brincadeira do que algo sério. E a filosofia, a nossa amada filosofia! Embora percorra os caminhos da busca da verdade nas mãos de alguns, geralmente transforma-se na teorização da teoria teórica. Enche páginas intermináveis, mas não as nossas almas… além do mais, decidiram inventar há algum tempo “ideologias económicas e de classes” (mais ou menos ao mesmo tempo que Madame Blavatsky escrevia as suas obras). Desde então, o dinheiro, ligado ao poder, reina como um deus. O chicote da ânsia pelo conforto mantém-nos prisioneiros, ainda que acreditemos ter abolido a escravatura e quando não é aquele, são as algemas do medo, da falta de sentido da vida, da amoralidade, que nos prendem em redes que parecem invisíveis, mas das quais é muito difícil libertarmo-nos. E não falta quem postule que o seu sistema foi o percursor do Materialismo Histórico e um factor na sua justificação! Mas não é conveniente agora entrar nesse tema. Nem deveria tê-lo mencionado!

Sei que esta carta parece bastante desoladora… E é, se se observa da perspectiva particular do seu tempo. Mas considere-a de outra maneira (sei que está habituado a olhar as coisas de diferentes ângulos): o tempo mostrou-nos que todas as ideias têm consequências, que todas as acções geram resíduos, que todas as invenções têm dois lados. E isso é bom. Até à primeira metade do século passado acreditávamos firmemente que podíamos mudar este mundo a partir do seu interior. Felizmente, aqueles que o inspiraram também nos inspiraram, levando-nos à conclusão (pelo menos entre os verdadeiros filósofos) de que, obedecendo à lei dos ciclos, esta civilização se dirige ao seu fim e que o nosso papel agora é plantar sementes para o amanhã. De certa forma, foi isso que fez, não? E prosseguimos nesta viagem e assim continuaremos, até que chegue o novo amanhecer… um amanhecer que esperamos, quem sabe, que não seja nem chinês nem europeu, mas sim verdadeiramente universal!

E como temos trabalhado para isso? Ah, esta é a melhor notícia que posso dar-lhe! Sim, alguém prestou à humanidade o grande serviço que pressagiou. Platão foi transformado num sistema: um sistema de vida. Teoria não, viver! E assim vivemos em muitas partes do planeta, e cada vez mais. E chamamos a este sistema “Filosofia à maneira clássica”. É um bom nome, não é?

Que continue a descansar em paz, caso não esteja já de novo entre nós, plantando sementes para o futuro.

Obrigado pelo seu exemplo de vida e por me ter ensinado que “cada hora perdida leva consigo uma parte da vida”.

O seu humilde e obediente irmão.


Bibliografia

(Organizador), A. F. (2016). Escritos de Leibniz sobre a China. Campinas: Phi.

(Organizador), A. F. (2022). Leibniz e a China: 300 anos de discurso sobre a teologia natural dos chineses. Campinas: Phi.

Blavatsky, H. P. (2010). A Doutrina Secreta (Vol. I). São Paulo: Pensamento.

Blavatsky, H. P. (2011). A Doutrina Secreta (Vol. II). São Paulo: Pensamento.

Blavatsky, H. P. (2022). Glossário Teosófico. Lisboa: Centro Lusitano para a Unificação Cultural.

Burke, P. (2020). The Polymata: Uma história cultural desde Leonardo da Vinci até Suzan Sontag. São Paulo: Unesp.

↑ Colin, D. G. (4 de abril de 2022). www.marxismo.org.br – Acedido em 2022, disponível em Esquerda Marxista: https://www.marxismo.org.br/a-origem-dialetica-do-codigo-binario-e-a-historia-da-computacao/

Vários. (Jan-Jun 2016). Cadernos espinosanos (número especial sobre Leibniz), 34.

Fortes, F. P. (2013). ARTE E MÚSICA COMBINATÓRIA EM LEIBNIZ. Simpósio sobre Estética e Filosofia da Música. Porto Alegre: UFRGS.

Franzon, C. R. P. (2011). Um estudo sobre Leibniz e a criação de um alfabeto do pensamento humano. In: XV EBRAPEM, Campina Grange. Anais Ebrapem 2011, 2011. v. 1.

Kontic, S. Z. (2015). Ideia, imagem y representação: Leibniz crítico de Descartes y Locke. Trabalho fim de mestrado. São Paulo.

Leibniz, G. W. (2004). Discurso da metafísica e outros textos. São Paulo: Martins Fontes.

Leibniz, G. W. (1974). Monadologia – Discurso da metafísica e outras obras. São Paulo: Abril Cultural.

Leibniz, G. W. (2017). Ensaios de Teodiceia – Sobre a bondade de Deus, a liberdade do homem e a origem do mal. São Paulo: Estação Liberdade.

Leibniz, G. W. (2019). Discurso metafísico. Petrópolis: Vozes.

Neto, A. F. (2011). Leibniz e a teologia natural dos chineses. Campinas: Unicamp.

Reale, G. (2017). Filosofia: Idade Moderna (Vol. 2). São Paulo: Paulus.

Rossi, P. (1989). Clavis Universalis A Arte da memória e da lógica combinatória de Lullo a Leibniz. México: Fondo de Cultura Económica.

Scruton, R. (2008). Uma breve história da filosofia moderna. Rio de Janeiro: José Olympio.

Souza, A. C. (2015). 10 lições sobre Leibniz. Petrópolis: Vozes.

Yates, F. A. (1981). El Iluminismo Rosacruz. México: Fondo de Cultura Económica.

Imagem de capa

Gotfried Wilhelm Leibniz por Bernhard Christoph Francke. Domínio público

  1. Citado pelo professor José Roberto Teixeira Leite em “Leibniz e a China: 300 anos do Discurso sobre a teologia natural dos chineses”. ↩︎
  2. Invitatio Fraternitatis Christi ou Societas Christiana eram nomes pelos os quais se identificavam os movimentos de Rosacruz nessa altura. ↩︎
  3. Johannes Valentinus Andreae (1586-1654) foi um teólogo alemão, referido por muitos como sendo o autor principal dos manifestos rosicruz Fama Fraternitatis RC, Confessio Fraternitatis RC e Nupciales Quimicas de Christian Rozenkreuz e a expressão “Ordem Rosacruz”. ↩︎
Partilhar

Leave a Reply