Livro: “O que não podemos saber” de Marcus du Satoy

Nesta viagem aos confins do conhecimento, Marcus du Sautoy investiga o trabalho de pioneiros nas áreas da física quântica, da cosmologia e das neurociências, questionando relatos contraditórios e consultando os mais recentes dados. É possível virmos a saber tudo, um dia? Ou haverá áreas de investigação que estão para lá das capacidades de compreensão humana?

Marcus du Satoy, professor de matemática na Universidade de Oxford, é um dos grandes difusores deste domínio do saber no início do século XXI. Além do ponto de vista filosófico, quase me atrevo a dizer, também do teleológico.

Famoso pelo seu livro A Música dos Números Primos, escrito em 2003 e levado pela BBC para a televisão, também causou um grande impacto em milhões de interessados no documentário de três capítulos, O Código (BBC, 2011) que revela a estrutura matemática na natureza, como um “livro” escrito pelas mãos de Deus, de uma Inteligência Cósmica, ou cristalização da Mente divina. E, claro, sua “História da Matemática” (BBC, 2008), em quatro capítulos, uma obra de arte no âmbito pedagógico.

Em 2009, Marcus recebeu o prémio Michael Faraday da Royal Society of London pela sua excelência na divulgação da ciência, e foi designado Cavalheiro Oficial da Ordem do Império Britânico em 2010 pelos seus serviços à ciência.

Marcus du Satoy, autor do livro “O que não podemos saber”

O título completo deste livro ao qual nos referimos hoje é: “O que não podemos saber: viagem aos limites do conhecimento”. Se a Matemática é o que nos permite moldar a nossa compreensão das Leis da Natureza, ou até encontrar a quinta-essência dessas mesmas leis (neste problema kantiano, não entraremos agora), Marcus du Satoy explica neste trabalho até que ponto elas também nos tornaram conscientes dos limites de nosso conhecimento, na sua aplicação à Mecânica e à Física Nuclear, por exemplo.

Usa a impossibilidade factual de saber que número vai sair num dado (em condições normais de jogo), mesmo que conheçamos as leis do movimento que o governam, ou o surpreendente movimento caótico de um pêndulo duplo (embora nada deva existir na Natureza mais previsível do que o movimento de um pêndulo simples), ou a emissão radioativa de urânio, onde, tanto quanto sabemos, é impossível saber o momento exato em que ocorrerá e, no entanto, a “lei da sua decadência” é perfeitamente conhecida.

Discute, com esse mesmo critério, a impossibilidade de saber se o universo ou o tempo é infinito ou não; essa é a grande questão, de saber se existe um antes do Big Bang. Embora devamos também nos perguntar se temos certeza absoluta de que o nosso universo começou com uma “Grande Explosão”; Kant diria, claro está, que não há uma certeza imóvel na ciência da natureza, ao contrário do que acontece na Matemática. Também incide nos domínios da consciência e da velha controvérsia se ela nasce no cérebro ou simplesmente se expressa nele.

Capa do livro “O que não podemos saber” de Marcus du Satoy

O livro é escrito de uma forma muito clara e educativa, as reflexões são sinceras e, extremamente importante, há uma grande humildade na sua abordagem do conhecimento. Não se perde a consciência do mistério, esta que Newton ilustrou dizendo que o que nos rodeia é um mar insondável e que jogamos apenas com as suas pedras, ou com a água que entra num copo mais ou menos pequeno; ou quando ele disse que era simplesmente como uma criança nos ombros de gigantes, todos os sábios da antiguidade que o precederam.

Talvez este seja o seu primeiro livro em que precisa introduzir disciplinas que não são a sua especialidade, que o levaram a mais de um ano de estudos, entrevistas, etc. mas vemos o filósofo e o matemático enfrentando os grandes problemas do conhecimento, alguns dos quais, curiosamente, são os mesmos de 2000 ou mais ou anos anteriores.

Mudam-se os cenários e as ferramentas, mas o ser humano, intrinsecamente, não muda tanto, ou talvez essas transformações sejam percebidas em ciclos mais longos, dezenas ou centenas de milhares de anos, onde o vemos, aí sim, avançando enquanto Ulisses retorna a Ítaca.

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