Matemática para Filósofos

Se a princípio do século II, o filósofo Teón de Esmirna escreveu o livro “Matemáticas para entender Platão”, quase dois mil anos depois, desde esta mesma Nova Acrópole em Portugal, sentimos o seu mesmo entusiasmo, aprendemos das suas ideias e lançamos a nossa revista “Matemática para Filósofos” para os enamorados da beleza matemática, para os enamorados da Verdade.

A teoria cosmológica dos números, que Pitágoras aprendeu dos hierofantes egípcios, é a única capaz de conciliar a matéria e o espirito, demostrando matematicamente a existência de ambos, começando com cada um deles.  

Helena Petrovna Blavatsky (1831-1891)

Cálculos exatos para entrar no conhecimento das coisas existentes e de todos os escuros secretos e mistérios.

Primeira oração do Papiro egípcio matemático de Rhind

Esta revista nasce com o interesse de dar ferramentas matemáticas aos filósofos. Entendemos por filósofos não só aqueles que tem a titulação académica ou os que gostam de ler Kant, Platão, Hegel, Confúcio ou qualquer dos gigantes do pensamento humano. Entendemos por “filósofos” aqueles que têm a tendência natural para perguntar-se pelo sentido intimo do que os rodeia e inclusive a si mesmos, os que dialogam na sua intimidade seguindo a luz de uma intuição, os que amam aprender, os que sonham ser flechas lançadas ao coração da sabedoria, para fundir-se, quem sabe, na eternidade com Ela no seu infinito que é a raiz de tudo que existe. 

Não queremos que seja uma revista para eruditos, nem filósofos nem matemáticos só, mas que possam lê-la todos aqueles com a formação básica em números e geometria, pois o seu intuito é mais pedagógico do que de investigação. Poderíamos também tê-la chamado “Matemáticas para Poetas” pois é para aqueles que se enamoram dos números e das suas propriedades, que sentem a beleza do triangulo ou a dança silenciosa de uma cónica, que se estremecem diante do mistério de Pi (que move o universo inteiro com a sua transcendência) ou dos números primos (pois sentem-nos como estrelas de um firmamento mental); ou experimentam uma grande alegria interior estudando a Proporção Áurea (que governa a natureza e estabelece o vínculo desde o infinitamente grande ao infinitamente pequeno através da analogia ou de uma cadeia de semelhanças). 

Pitágoras de Crotona, desenho de J. Augustus Knapp, circa 1926

Os números são as cristalizações da mente, e deste modo, as portas tanto para a verdade como para a criação na matéria, e é evidente que todo o desenvolvimento humano até este, nosso século XXI, especialmente na tecnologia, não teria sido possível sem o crescimento exponencial das nossas ferramentas matemáticas. Mas não acreditamos que uma forma de fazer ou pensar matemática deixa a anterior obsoleta, e que por exemplo a geometria analítica torne desnecessário a ler ou estudar a bela arquitetura de formas e raciocínios de Euclides. Pois estes ensinamentos e imagens não nos servem só para solucionar de forma exata um problema X, mas para aprender a pensar, para descobrir as analogias na Natureza e no profundo da alma. Pois como dizia Galileu, os números são o alfabeto com que Deus escreve em ambas. 

As antigas civilizações expressavam os mistérios mais profundos com diagramas geométricos e operações numéricas, a única forma de simbolizar aquilo que está totalmente fora do alcance dos nossos sentidos e ainda quase da nossa imaginação. Que perfeição e claridade, que síntese tão cristalina, por exemplo, o ensinamento filosófico de Nilakantha Sri Ram (1889-1973) quando disse que a educação das crianças é uma elipse cujos focos são a escola e os pais! Milhares de palavras teriam explicado melhor isto, do que com esta bela e simples analogia geométrica? E assim com toda a infinidade de assuntos que a vida nos levanta, como equações que devemos solucionar. É casualidade que dois dos maiores filósofos e taumaturgos, como Proclo e John Dee tenham escrito vários volumes de comentários aos Elementosde Euclides? Ou que Platão disse que o universo é feito do idêntico e do diferente (isto é, do Um e do Outro, simbolizado pelo número 1 e 2, respetivamente)?

Nesta revista também desenvolvemos muitos dos tópicos da que hoje chamamos Matemática e Geometria Sagrada, e a autores clássicos como Pitágoras, Platão, Plutarco, Boecio, Luca Pacioli, Cornelio Agripa… e desde logo a sapiência de H.P. Blavatsky e o matemático e filósofo espanhol Roso de Luna; e também contemporâneos como Stephen Philips, com as suas profundas conexões entre a religião e a ciência usando o poder da Tetraktys pitagórica, Schwaller de Lubicz e os seus estudos de matemática egípcia, Matila Ghyka com o seu clássico Geometry of Art and Life e outras obras, aos filósofos e artistas portugueses Almada Negreiros e Lima de Freiras, entre outros. 

Para Platão as Matemáticas não têm como finalidade dominar o mundo, submete-lo aos nossos desejos (por desgraça, o uso principal que lhe temos dado), mas abrir um caminho desde o mundo das sensações, caóticas, para a ordem inteligível, em direção ao reino luminoso em que vivem eternamente os Arquétipos. A escada que permitiria este acesso estava sintetizada nas vivências de Aritmética, Geometria, Ciência dos Volumes, Astronomia, Música e Dialética. Vários séculos depois incorporou-se a estas a Linguagem e o seu poder de transformação, e assim nasceu o Trivium (Gramática, Retórica e Dialética) e Quadrivium (Aritmética, Geometria, Astronomia e Música), as Sete Artes Liberais, cuja finalidade não era outra senão enobrecer a alma humana com as vivências do justo, do belo e do bom, ou seja afirmar a sua natureza filosófica, pois a matemática foi sempre para filósofos. 

Se a princípio do século II, o filósofo Teón de Esmirna escreveu o livro “Matemáticas para entender Platão”, quase dois mil anos depois, desde esta mesma Nova Acrópole em Portugal, sentimos o seu mesmo entusiasmo, aprendemos das suas ideias e lançamos a nossa revista “Matemática para Filósofos” para os enamorados da beleza matemática, para os enamorados da Verdade. 

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