O lótus dos grandes números

Não há símbolo algum antigo que não tenha um significado profundo e filosófico, cuja importância e significado aumente com a sua antiguidade. Tal é o Lótus. É a flor consagrada à Natureza e aos seus Deuses e representa o Universo no abstracto e no concreto, sendo o emblema dos poderes produtivos, tanto da Natureza Espiritual como da Física. - A Doutrina Secreta, Vol. II H. P. Blavatsky, Cap. VIII “O lótus como símbolo universal”.

Os indianos conheciam este profundo significado do lótus e relacionaram-no com:

1. Tudo aquilo que surge do Fogo e da Água. No calor e na humidade expandem-se os gérmenes da natureza e com ele aparecem os novos rebentos da Primavera. Mas também se refere a tudo o que nasce da Ideia – Fogo – e da Forma – Água. Do Espírito e da Matéria. Todo o Universo aparecia ante o seu olhar filosófico e poético como um lótus que é o assento do Deus Criador, Brahma.

2. A semente espiritual na Alma humana. Uma semente de um mundo celeste, Fogo numa natureza de água, a psique. É, portanto, símbolo do Discípulo, aquele que faz crescer as sementes da verdade depositadas nele pelo seu Deus. O Discípulo, como o Lótus, tem as raízes no barro da existência ilusória e manifestada, cresce silenciosamente através das correntes astrais – de água – onde nunca abre o seio interno da sua flor. A alma do Discípulo abre-se somente a um mundo de ideias fortes, belas e elevadas. E o dom do seu espírito volta à fonte de onde surgiu, “como a chispa que desaparece na radiação universal”. É também no Lótus o ar quem percebe o lustre das suas pétalas e o fogo do Sol quem beija a sua cor.

Mas não falaremos destes distintos significados que tanto a filosofia hindu como a egípcia atribuíram ao lótus. Tão-pouco a Pureza, a sobriedade e rectidão, emblemas do sábio, com que os chineses o relacionaram. Tal como nos conta Tcheu Tuen-Yi, a ideia de pureza de que é símbolo por não se manchar nas águas pantanosas em que habita, une-se à de firmeza, pela rigidez do seu talo. Também na alquimia chinesa é símbolo da flor de ouro, a perfeição ou ressurreição da chama espiritual. Para os chineses, tal como para os iberos nas suas cerâmicas funerárias, fala do tempo e dos seus ciclos nos quais a alma abre e fecha alternadamente os seus braços. Na China o tempo passado, presente e futuro são, no lótus, o botão, a flor aberta e a semente derramada.

Na Índia também simbolizou os sete centros energéticos do ser humano, os chakras, rodas que giram e entrelaçam as suas fibras de luz e que se abrem como lótus para abraçar a luz e a vida que lhes chega do sol.

Para estas culturas, pois, o lótus foi símbolo da presença de Deus na matéria. O céu na terra. “Sou como o lótus, resplandeço na Pureza” diz o Iniciado egípcio. E o lótus também significa o coração sem mancha. Com as suas folhas dobradas, a forma do lótus recorda-nos a do coração e a da pirâmide, a sua imagem geométrica. Ambos representam o Universo como morada de Deus. E Plutarco, o sacerdote de Apolo, diz ter aprendido dos sábios egípcios que o lótus de folhas arredondadas é o símbolo do Cosmos e o de folhas triangulares representa a Natureza e a sua ordem piramidal.

E o que tem isto a ver com os grandes números? E a que grandes números nos referimos?

É que a filosofia e a matemática hindu representam em símbolos naturais os grandes números, aqueles que nós dificilmente pronunciamos. E entre eles o lótus tem um valor excepcional.

Sapta Chakra, manuscrito tibetano de 1899.

A matemática hindu trabalha, como a matemática ocidental, com as potências de dez. É de facto uma herança hindu o facto de que para denominar o 365 o façamos como 3×10 elevado a 2 mais 6 por dez elevado a 1 mais 5 por 10 elevado a zero 365 = (3×102) + + (6×101) + (5×100), assim 365 = 300 + 60 + 5. Esta estrutura decimal foi vital para a filosofia pitagórica e para a Ciência-Religião egípcia, que a relacionou com a Enéade de Heliópolis que surge do Espaço puro ou Nun – o zero matemático. Para os pitagóricos os primeiros arquétipos foram os números, de onde surge a medida ou as relações entre os seres, ou os seres que são relações entre Números. Para os egípcios os primeiros Deuses foram estes 10 primeiros números e tudo aquilo que não se ajustava a eles nas suas medidas era origem do caos. Estes dez Números perpetuam-se em séries sem fim. Contamos até 10 e até cem, dez vezes cem e continuamos até mil, dez vezes dez vezes dez. Mas são estes mesmos dez números que dançam e dançam. E se bem que é certo que os dez primeiros números são a chave do edifício matemático que é a Natureza – estes primeiros números e as suas sombras geométricas – também é certo que cada ordem numérica tem um significado qualitativo distinto. Isto sabiam bem os filósofos hindus quando deram um nome, um significado e um símbolo distinto a cada potência de dez. Muitas vezes estes nomes são para nós intraduzíveis ou de um significado ambíguo, como:

Jaladhi – Oceano, que expressa o 10 elevado a 14, ou kshobhya – Movimento, que é o 10 elevado a 17, ou parardha – literalmente “mais além – metade”, 10 elevado a 12 e que se interpreta como a metade do caminho que leva à Eternidade; porque a mesma serpente sem fim da eternidade, Ananta dá nome ao 10 elevado a 13. Talvez as razões de chamar assim a estes grandes números sejam razões encriptadas e o facto de que os signos do silabário sânscrito também se possam ler como números tenha muito a ver com isso. Recordemos que uma das perguntas mais difíceis que se faz ao Buda no Lalita-Vishtara é que saiba nomear os escalões que nos levam ao infinitamente grande e ao infinitamente pequeno. Que ascenda até abarcar o universo e que descenda até nomear, definir e sujeitar à razão as interioridades do átomo. Recordemos este belo e antigo ensinamento na “Luz da Ásia” do poeta inglês Edwind Arnold:

“Depois de mim repete 

A tua numeração até chegarmos a Lakh,

Um, dois, três, quatro, até dez, e então de dez em dez

Até às centenas, milhares.” Depois dele a criança

Nomeou os dígitos, décadas, centenas; sem pausas,

O redondo lakh(1) alcançou, mas suavemente murmurou

“Então vem o kôtinahutninnahut,

Khambaviskhamba, ababattata,

Até kumudsgundikas e utpalas,

Por pundarîkas até padumas,

O que resta é como contas o máximo de grãos

Do solo de Hastagiri até os mais fino pó,

Mas para além disso uma numeração é,

Kâtha, utilizada para contar as estrelas da noite,

Kôti-Kâtha, para as gotas do oceano,

Ingga, o cálculo de circulares;

Sarvanikchepa, pelo qual lidas

Com todas as areias do Gunga, até voltarmos

Para Antah-Kalpas, onde a unidade é

As areias de dez crore(2) Gungas. Se alguém procura

Uma escala mais compreensiva, os montes aritméticos

Perto de Asankya, que é a cauda

De todas as gotas que em dez mil anos

Cairão em todos os mundos numa chuva diária,

E desde aqui até Maha Kalpas, pelo qual

Os Deuses calculam o seu futuro e o seu passado.”

“Depois de mim repete 

A tua numeração até chegarmos a Lakh,

Um, dois, três, quatro, até dez, e então de dez em dez

Até às centenas, milhares.” Depois dele a criança

Nomeou os dígitos, décadas, centenas; sem pausas,

O redondo lakh(1) alcançou, mas suavemente murmurou

“Então vem o kôtinahutninnahut,

Khambaviskhamba, ababattata,

Até kumudsgundikas e utpalas,

Por pundarîkas até padumas,

O que resta é como contas o máximo de grãos

Do solo de Hastagiri até os mais fino pó,

Mas para além disso uma numeração é,

Kâtha, utilizada para contar as estrelas da noite,

Kôti-Kâtha, para as gotas do oceano,

Ingga, o cálculo de circulares;

Sarvanikchepa, pelo qual lidas

Com todas as areias do Gunga, até voltarmos

Para Antah-Kalpas, onde a unidade é

As areias de dez crore(2) Gungas. Se alguém procura

Uma escala mais compreensiva, os montes aritméticos

Perto de Asankya, que é a cauda

De todas as gotas que em dez mil anos

Cairão em todos os mundos numa chuva diária,

E desde aqui até Maha Kalpas, pelo qual

Os Deuses calculam o seu futuro e o seu passado.”

Edwin Arnold, Luz da Ásia

Quanto ensina e quanto encobre! Tal é o poder do símbolo. Nela fala-se da série de potências de dez ainda que como conta de cem em cem, se trate somente das potências ímpares – até chegar a asankhya, literalmente “o inumerável”, ou “o que está mais além da razão”, que é “a conta de todas as gotas de chuva que, em dez mil anos, cairiam por dia sobre o conjunto dos mundos”. Por estas gotas deve entender-se os raios de luz que durante este tempo irradiam infinitos mundos sobre infinitos mundos, estrela a estrela. Fala-se também – fácil, em comparação com o anterior – do número que permita contar as estrelas da noite, as gotas do oceano e aquele mediante o qual os deuses calculam o seus porvir e o seu passado. Por este termo de asankhya também se entende no Bhagavad Gita – o manual de filosofia esotérica hindu – a duração total da vida de Brahma, a quantidade bagatela de 311.040.000.000.000 anos humanos, que dizem da duração do universo manifestado, em que nascem, vivem e morrem os incontáveis mundos. Pense-se na duração de vida do nosso sistema solar, segundo ensinam os cientistas e aceite-se esta vida como um elo de uma longa cadeia de dez mil e este número não parecerá tão incrível. E é que como afirmam os comentários a esta obra, ainda esta quantidade não é Nada no oceano sem margens da Eternidade.

Os lótus surgem neste Oceano de Luz da eternidade como sementes crescidas de uma perfeição divina. A Beleza, Harmonia, Perfeição do Divino brotam como um lótus com raízes no mundo manifestado. Para a filosofia esotérica o átomo é um lótus, perfeito na sua simplicidade, a estrela é um lótus e um sistema solar como o nosso é um lótus.

É um lótus a galáxia e é um lótus a imaculada luz do Universo. Lótus que abrem e fecham as suas pétalas na eternidade. Talvez seja esta a causa pelo qual os filósofos hindus utilizaram o lótus para simbolizar vários dos seus “grandes números”, em quantidades para nós impossíveis de imaginar. Se o lótus resume em si o divino de uma vida, distinto será se quer expressar o bater e o movimento do átomo, da galáxia ou do Universo na sua totalidade. Um-só – um de uma série infinita sem princípio nem fim. Recordemos que a iconografia hindu diferencia o simbolismo do lótus segundo a sua cor, número de pétalas e segundo tenha as suas folhas dobradas em forma de casulo, semiabertos ou totalmente abertas à luz. Como a semente do lótus desenha nas suas pregas a forma futura das suas pétalas, o lótus representa o número dez e aos seus desenvolvimentos, presentes no círculo e o seu diâmetro vertical, o seu símbolo. Pois para a filosofia esotérica, a vida surge como surge a série numérica do dez, e esta segue o esquema geométrico de um diâmetro vertical que corta e polariza o movimento ininterrupto da sua circunferência. Assim o mistério do 10 é o mistério da unidade no seio da sua circunstância, imagem que evoca a do lótus. Isto sabiam os sábios hindus quando chamaram à Unidade, Mahi, “leite coagulado”, a infinita luz estelar que alimenta a vida. Nascem as “unidades” de vida como coagulações desta Luz ou Vida-Una, como lótus de imaculada beleza.

Dos lótus, o mais primitivo e de capital importância é PADMA, o lótus rosa, símbolo da pureza, da mais alta divindade e da razão inata. Nomeou o número mil por ser o lótus de mil pétalas – Sahasrasa – o trono da Sabedoria, o deus Vishnu. Mas também se converteu no nome de “mil milhões” (10 elevado a 9), e mais adiante no de 10 elevado a 14, inclusivamente no de 10 elevado a 29 e até do absolutamente incompreensível 10 elevado a 119.

KUMUDA é o lótus branco rosado, que nomeia o número 10 elevado a 31 (mil triliões) e ao 10 elevado a 105.

UTPALA é o lótus azul entreaberto. Na filosofia hindu e budista representa o triunfo do espírito sobre os sentidos. É a verdadeira vitória e, portanto, a flor do poder, a que representa os grandes Reis e os Iniciados. No Egipto esta flor em casulo é o ceptro Sejem, ceptro de força, poder e autoridade, associado a Anúbis, a Osíris e a Sekhmet, a deusa leoa, cujo nome, “a poderosa”, é a forma feminina deste ceptro, que aparece transportando como Senhora que é do Lótus. No Livro dos Mortos (Hino 179) está escrito “Sou o desgrenhado que surge do seu próprio Sejem”, é a imagem do que desperta e abre todos os seus poderes interiores como o lótus azul entreabre as suas pétalas. É o mesmo Lótus Azul a que se referem os antiquíssimos textos tibetanos que recompilou H. P. Blavatsky na sua imortal Doutrina Secreta

“Os Reis da Luz partiram indignados. Os pecados dos homens fizeram-se tão negros que a Terra se estremece em agonia… As azuladas sedes permanecem vazias. Quem entre as morenas, quem entre as ruivas mesmo entre as negras, pode ocupar as Sedes dos Abençoados, as Sedes da Sabedoria e da Piedade? Quem pode assumir a Flor do Poder, a Planta do dourado Talo e da Flor Azul?”.

H.P. Blavatsky, A Doutrina Secreta

Na matemática hindu nomeia o 10 elevado a 25.

Recordemos, para além disso, que a civilização egípcia, tão aparentada à da Índia, também figurou o número 1000 pela flor do lótus.

PUNDARIKA é o lótus branco de oito pétalas, símbolo da perfeição mental e espiritual. Este lótus tem tantas pétalas como as oito direcções do espaço, os oito pontos cardeais ou os oito elefantes da cosmogonia hindu. Nomeia o elefante que vigia o horizonte sudeste do universo para o deus do fogo Agni. Matematicamente é o 10 elevado a 27 e inclusivamente a 112.

Lótus, tais são os lótus dos grandes números, o espírito encarnado agitando-se no átomo, no Sol e no Mundo, invocando como potências de dez que são a luz divina em seios cada vez maiores. Se a nossa mente se abrisse como um lótus à luz, talvez pudesse entender o enigma dos lótus dos grandes números.

Notas:
(1) O valor matemático de lakh é de 105 = 100.000.
(2) Um crore são 100 lakh, quer dizer 10.000.000. 
Partilhar

Deixar uma resposta