O Timeu de Platão – Primeira Parte

O Timeu é um diálogo entre quatro personagens: Sócrates, Timeu, Crítias e Hermócrates. Certamente, é uma obra muito obscura, tanto pelos conceitos que utiliza, como pela sua linguagem simbólica, que, às vezes, nem se percebe como tal. Somente quando se comparam as ideias de Platão, a sua forma de entender o universo e o homem, se percebe até que ponto utiliza os símbolos.
Manuscrito medieval da tradução latina de Calcídio do Timeu de Platão. No final do século XVI, este manuscrito pertencia ao professor da Universidade de Leiden, Daniel Heinsius, que o entregou a seu filho Nicholas. Nicholas, cuja assinatura aparece no manuscrito, era o bibliotecário da rainha Christina da Suécia, cuja coleção chegou à Biblioteca do Vaticano após sua morte. Dominio Público

“O Timeu de Platão é uma das chamadas obras «dogmáticas», ou seja, não se baseia na dialéctica, mas nos Velhos Ensinamentos e podemos compará-lo às páginas do livro de Dzyan ou o Popol-Vuh.

É Instrução extraída dos Mistérios, e a fórmula filosófica e a dialética são apenas vestes para uma apresentação racional. O silogismo cedeu passagem ao dogma mágico. A sua obscuridade deu motivos para que críticos modernos pensassem que está interpolada e mesclada, mas a sua unidade matemática conceptual demonstra o seu sentido e coerência.”

Jorge Ángel Livraga Rizzi

A linguagem simbólica é duplamente rica, primeiro porque cada qual pode aprofundar o conteúdo segundo o seu próprio entendimento, captando mais ou menos conteúdo de acordo com o seu nível evolutivo. E segundo, porque esta é uma forma de proteger as grandes verdades, porque o conhecimento é poder e deve estar protegido daqueles seres humanos que não têm capacidade suficiente para fazer bom uso dele.

Creio ser impossível falar de todos os aspetos e ideias que contêm esta obra, só vou eleger algumas ideias fundamentais, que penso puderem ser de utilidade para aquelas pessoas que tentam compreender a vida cada dia um pouco melhor. Pelo menos, a mim serviu-me para isso.

O primeiro exemplo de linguagem simbólica difícil de perceber são as primeiras frases do livro:

SÓCRATES: Um, dois, três; mas onde está, meu caro Timeu, o quarto dos nossos convidados de ontem, nossos anfitriões de hoje?

TIMEU: Alguma doença o atingiu, ó Sócrates, pois, se dependesse de si próprio, não faltaria a este encontro.

Aparentemente está a falar de quatro pessoas. No entanto, estes parágrafos resumem toda a doutrina pitagórica da Tetraktys. Quando aparece o número quatro, aparece o mundo material com os seus quatro Elementos, e o quarto invoca a Década, pois implica o três, o dois e o um, o que soma dez (soma pitagórica). Este processo descreve a formação de todo o universo na forma numérica.

A Enéada de Heliópolis no Egipto também expressa esta criação com base em três tríades de Deuses mais a Divindade Absoluta Não-manifestada. O qual coincide com o que posteriormente se relata no Timeu relativamente às criações posteriores, que já não são efetuadas pelo Demiurgo, mas por Deuses secundários criados por ele anteriormente. Tudo isto fala de níveis sucessivos na criação do universo e de um universo criado matematicamente, estruturado com base em proporções exatas.

De facto, posteriormente aparecerá a proporção áurica, como proporção perfeita. Tal proporção define-se da seguinte forma: a relação entre dois segmentos desiguais, sendo o primeiro menor que o segundo, deve ser igual à razão entre o maior e um terceiro que é igual à soma de ambas as partes.

O conceito platónico e pitagórico de número não é o que nós temos e utilizamos na vida diária. Os números são entes arquetípicos, que se manifestam de uma determinada maneira e que nós representamos por uns carateres determinados. Por isso em determinadas religiões são representados por Deuses.

Mais adiante, Sócrates faz um resumo da República e posteriormente, começa a história de Atlântida. Aqui aparecem algumas ideias muitos interessantes.

Uma delas é a valorização da tradição, da história e da memoria como fonte de conhecimento e tudo isto se relaciona posteriormente com a educação e seus efeitos no ser humano. Segundo disse Sólon, nesta obra, um dos sacerdotes egípcios mais velhos, disse-lhe: “Ó Sólon, Sólon! Vós gregos sois todos crianças, não há um grego que seja velho”… Todos sois jovens de espírito, pois não tendes nele uma antiga crença transmitida através de uma antiga tradição nem um conhecimento envelhecido pelo tempo”.

Solón.  Antiga coleção da biblioteca da Universidade de Sevilha. Dominio Público

Outro conceito interessante, que se mostra na obra, é o dilúvio. O dilúvio não como um facto concreto, mas como uma série de destruições periódicas que sofre a Terra por água ou por fogo, que fazem desaparecer territórios e civilizações. Estes acontecimentos estão reunidos em muitas religiões e parecem significar purificações antes de começar novos ciclos. É a ideia de remover lastros inúteis para poder começar de novo e voltar a construir e a construir-se num caminho difícil que conduz a metas de altura cada vez maior.

O parágrafo continua da seguinte forma: “A causa disto é que tem havido e haverá numerosas destruições de homens por muitos motivos, as maiores por fogo e água, outras mais pequenas por inúmeras causas”.

Tudo isto nos pode fazer pensar que a evolução da humanidade não é linear, mas sujeita a ciclos e que pode ter havido civilizações muito avançadas, que pereceram por completo devido a estas destruições descritas, não só no Timeu, mas em muitas religiões, como se disse anteriormente.

Outro conceito importante é de que a antiguidade da Terra e da humanidade é anterior ao que normalmente se crê.

Disse o sacerdote: “A genealogia dos vossos, Sólon, que acabas de estabelecer, pouco diferem das lendas para crianças. Em primeiro lugar, porque recordais um só dilúvio dos muitos que se produziram antes…”.

Posteriormente, fala de Atlântida, da sua extensão, própria de um grande continente, da sua localização no meio do oceano atlântico e da sua grande potência. Relata, depois, como esta grande potência “tentou escravizar” a Grécia de então, o Egipto de então e outras terras. Termina dizendo que ocorreu um “violento sismo e um cataclismo; sucedeu durante um dia e uma noite terríveis, e toda a vossa casta guerreira se afundou sob a terra, e a ilha Atlântida, depois de desabar de igual forma sob o mar, desapareceu”.

A casta guerreira refere-se à que existiu, segundo conta Sólon no relato, na Antiga Atenas. Uma Atenas contemporânea da Atlântida, anterior à conhecida por nós e que teria perdido a sua memória devido à destruição provocada pelo grande cataclismo. Uma Atenas gloriosa, tanto na guerra, como na paz, cuja deusa, tal como na época histórica, era a deusa da sabedoria e da guerra.

Valoriza o Timeu a influência divina sobre os homens e sobre os povos. Todo o bom vem dos deuses e é bom respeitá-los e recordá-los. Enfatiza Sócrates, no final desta parte, que esta história é verdadeira.

Continua Timeu a fazer uma descrição do nascimento e natureza do universo e dos homens.

TIMEU: “O que é aquilo que é sempre e não devém, e o que é aquilo que devém, sem nunca ser?”

Segundo se explica, o primeiro é o que sempre existe de acordo consigo mesmo; o segundo nasce e morre, mas nunca existe no mundo real (arquetípico). Aqui podemos recordar a frase: O que é, sempre foi e sempre será. O resto é uma imagem, que se projeta e é essa imagem a que existe como imagem durante um tempo, uma vez que o que teve origem tem que ter um final. Na verdade, estão a contrapor-se os conceitos de ser e existir.

TIMEU: “Ora, tudo aquilo que devém é inevitável que devenha por alguma causa, pois é impossível que alguma coisa devenha sem o contributo duma causa.”

Esta frase reflete que não existe casualidade, senão a lei de causa e efeito, equivalente ao princípio de ação e reação da Física atual ou à lei do Karma dos hindus.

TIMEU: “O universo deveio, pois é visível e tangível e tem corpo, assumindo todas as propriedades do que é sensível; e o que é sensível, que pode ser compreendido por uma opinião fundamentada na percepção dos sentidos, devém e é deveniente, como já foi dito. Dissemos também que o que devém é inevitável que devenha por alguma causa. Porém, descobrir o criador e pai do mundo é uma tarefa difícil e, a descobri-lo, é impossível falar sobre ele a toda a gente.”

Platão disse que é um empreendimento difícil encontrar o criador e o pai do todo e comunicá-lo a toda a gente, ainda que o encontremos. Ou seja, é difícil para o ser humano chegar a compreender a origem e a sua causa; e aos poucos que o conseguem é-lhes muito difícil conseguir explicá-lo. Trata-se do mundo das essências para o qual a mente humana ainda não está preparada, uma vez que é necessário o conhecimento direto, intuitivo, aquele que não divide nem classifica, para poder conhecer a essência de algo.

Criação do Sol, a Lua e as Plantas (detalhe). Michelangelo. Dominio Público

TIMEU: “Ora, se o mundo é belo e o demiurgo é bom, é evidente que pôs os olhos que é eterno… Portanto, é evidente para todos que pôs os olhos no que é eterno… Assim sendo, de acordo com estes pressupostos, é absolutamente inevitável que este mundo seja uma imagem de algo… Deste modo, no que diz respeito a uma imagem e ao seu arquétipo, temos que distinguir…”

Temos em mente, até agora, que o universo visível se originou, mas o universo visível é a imagem de algo, que está mais além e que lhe deu origem.

Passamos agora a ver a causa, o porquê de o universo ter sido criado.

TIMEU: “Digamos agora qual foi a causa que levou ao criador a criar o devir e este universo. Era bom, e num ser bom nunca habita a maldade sobre coisa nenhuma. Ao estar isento de qualquer maldade, queria que tudo chegasse a ser semelhante a ele”.

Esta é a eterna pergunta, o porquê da existência. Para Platão, o mais elevado é o bem. Um ser absolutamente bom necessita de atuar, exercitar-se bem, não pode ser egoísta e, portanto, “queria que tudo chegasse a ser semelhante a ele”. Será como proporcionar a outros a oportunidade de ser semelhantes a ele. Naturalmente esta é uma explicação que dá características humanas a um “ser” que não é humano, mas, ainda que a forma de o explicar seja incorreta, porque não se pode definir com características humanas algo que não é humano, creio que a essência da explicação pode ser válida. Contudo, é impossível que a nossa linguagem apreenda as essências no nosso atual nível evolutivo.

“Compreendendo que a ordem é superior à desordem, o criador ordenou e organizou o caos primitivo e, como ser perfeito, não pôde fazer outra coisa além do belo. Descobriu também que um universo sem razão nunca poderia ser mais belo que outro que a tivesse e que seria impossível que a inteligência não estivesse unida à alma. Segundo este pensamento, “depois de juntar esta inteligência com a alma e a alma com o corpo, criou o universo para que, uma vez realizado, fosse a ação mais bela, conforme a sua natureza”.

Então, o universo tornou-se de forma ordenada, num ser vivo com corpo, alma e inteligência (Espírito). Um ser vivo, porque o universo é uno:

TIMEU: “Para que de facto este (o universo) fosse semelhante ao animal completo no que respeita à sua unidade, o criador não fez por esse motivo nem dois, nem infinitos mundos, mas que ao ter sido engendrado só este universo, existe e existirá apenas um.”

Vamos ver agora a formação do universo:

TIMEU: Daí que o deus, quando começou a constituir o corpo do mundo, o tenha feito a partir de Fogo (Espírito) e de Terra (Matéria). Todavia, não é possível que somente duas coisas sejam compostas de forma bela sem uma terceira, pois é necessário gerar entre ambas um elo que as una…. Ora, se o corpo do mundo tivesse sido gerado como uma superfície plana, sem nenhuma profundidade, um só elemento intermédio teria sido suficiente para o unir aos outros termos… Porém convinha que o mundo fosse de natureza sólida, e, para harmonizar o que é sólido não basta um só elemento intermédio mas sim sempre dois.”

A primeira figura geométrica fechada plana, que se pode construir é o triângulo (três dimensões). Mas, quando aparece em volume, necessitamos de mais outra dimensão. Então, vão aparecer os quatro Elementos.

TIMEU: “Foi por isso que, tendo colocado a água e o ar entre o fogo e a terra, e, na medida do possível, produzido entre eles a mesma proporção, de modo a que o fogo estivesse para o ar como o ar estava para a água, e o ar estivesse para a água como a água estava para a terra, o deus uniu estes elementos e constituiu um céu visível e tangível. Foi por causa disto e a partir destes elementos – elementos esses que são em número de quatro – que o corpo do mundo foi engendrado, posto em concordância através de uma proporção…”

Vimos o aparecimento dos quatro Elementos, cujas denominações são simbólicas e como tais muito mais amplas e profundas do que parece aparentemente. Somente no seu princípio mais básico estes quatro elementos coincidem com o que os seus nomes nos sugerem.

TIMEU: “… deu-lhe uma forma esférica, cujo centro está à mesma distância de todos os pontos do extremo envolvente – e de todas as figuras é essa a mais perfeita e semelhante a si própria –, considerando que o semelhante é infinitamente mais belo do que o dissemelhante… Depois, no centro pôs uma alma, que espalhou por todo o corpo e mesmo por fora, cobrindo-o com ela. Constituiu um único céu, solitário e redondo a girar em círculos, com capacidade, pela sua própria virtude, de conviver consigo mesmo e sem depender de nenhuma outra coisa, pois conhece-se e estima-se a si mesmo o suficiente. Foi por todos estes motivos que engendrou um deus bem-aventurado.”

A alma do universo impregna tudo, não existe nenhum lugar no qual ele não se encontre e inclusive onde a alma se estenda mais além dos seus limites: “… cobriu com ela o corpo por fora”.

Desta forma, encontramos outra vez o porquê e o como da criação do universo. A necessidade de relação, de dação, de amor, está dentro de si mesmo e a sua forma é perfeita. A felicidade encontra-se incluída nele.

O nascimento de Vênus. Sandro Botticelli. Dominio Público

Platão valoriza a velhice a maturidade como expressão de sabedoria:

TIMEU: “No que respeita à alma, ainda que só agora vamos tratar de falar dela, não é posterior ao corpo. O deus não os estruturou desse modo, como se ela fosse mais nova – ao constituí-los, não permitiu que o mais velho pudesse ser governado pelo mais novo… Graças à sua condição e virtude, constituiu a alma anterior ao corpo e mais velha do que ele, para o dominar e governar – sendo ele o governado – a partir dos seguintes recursos e do modo que se expõe: entre o ser indivisível, que é imutável, e o ser divisível que é gerado nos corpos, misturou uma terceira forma de ser feita a partir daquelas duas.”

Aqui temos a alma como um intermédio entre aquilo que não muda (Espírito) e aquilo cuja natureza é a mudança (Matéria), formada do Uno e do Outro, com algo de seu Pai e de sua Mãe, mas com características próprias. Seria uma ponte de comunicação, uma ponte cujo objetivo era a superação da matéria ou a transformação do material em espiritual. Na Índia antiga simbolizava-se por Shiva, o criador-destruidor, o dançante Fogo.

Também podemos ver a analogia deste processo com a tríade de Plotino: Ser, Inteligência e Criação.

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