Os quadrados mágicos na antiga medicina

Os quadrados mágicos, são figuras que contêm uma série de números ordenados de forma especial, foram tratados em outras épocas por grandes personagens como sendo algo mais do que apenas curiosidades matemáticas, sendo-lhes atribuídas influências terapêuticas que eram levadas em conta.

Em sua Revivificação das ciências religiosas,o grande erudito e ideólogo do Islão Al Gazzali (1058-1111) diz-nos que quem quiser verificar o poder dos números e das forças que geram, veja o uso que deles faziam os médicos do seu tempo na coadjuvação dos nascimentos.

Na Índia, no trabalho médico Siddhayoga, de Vrinda, em 900 d.C., já se refere que um quadrado mágico de ordem 3 favorece o parto, porém a versão mais antiga desses quadrados mágicos foi encontrada na China por volta de 2200 A.C. Uma das lendas chinesas conta que quando o Imperador Yu caminhava pelas margens do Rio Amarelo viu uma tartaruga com um diagrama numérico na sua carapaça, modelo esse que ele chamou de Lo Shu. O registo mais antigo, na verdade, é também da China, num livro do primeiro século, o Da-dai Liji. A este modelo de quadrado mágico (o mais simples dos quadrados) era atribuído um valor advinhatório, arquitetónico, ritual, mágico, meteorológico, astrológico, filosófico e até mesmo de conhecimento da alma humana. Como prova, Frank Swetz, no seu Legacy of Lo shu,refere que o tai- chi reproduz nos seus movimentos harmónicos este diagrama, Lo Shu, quadrado mágico dos nove primeiros números naturais.

Historiadores pensam, a partir dos fatos, que o conhecimento destes quadrados mágicos passou da Índia para a China, de lá para o Islão e do Islão para a Europa, onde eram usados principalmente em magia cerimonial e terapêutica. No Islão, eles recebem a designção de ala’adad,ou seja, “arranjo harmónico de números”, e foram estudados por muitos dos seus matemáticos.

Praça mágica luo shu

Também muitas tribos e etnias da África Ocidental usam os quadrados mágicos com intenção terapêutica e apotropaica nos seus texteis, máscaras e objetos religiosos, e até mesmo no projeto e construção das suas casas. O matemático da cultura Fulani, Muhammad ibn Muhammad, no início do século XVIII, no seu livro Africa Counts,deixou informações muito detalhadas sobre este assunto.

Melancolia I (quadrado mágico), Albrecht Dürer. Dominio Público

Na Europa, um dos seus maiores divulgadores foi o filósofo Cornelius Agrippa, e depois Paracelso, o grande médico mágico do Renascimento, que lhes dedica um livro inteiro. O pintor Albretch Durer, no seu famoso quadro Melancolia, pintou um quadrado mágico de ordem 4 (de 4 fileiras e 4 colunas), porém este não corresponde à influência astrológica de Saturno, como seria de se imaginar, mas à influência de Júpiter, por isso aparece como um talismã médico psicológico, pois a influência jovial, ativa, poderosa e gentil de Júpiter é o que pode neutralizar a inatividade esterilizadora da melancolia.

Quadrado mágico de Júpiter

Para os filósofos e médicos do Renascimento, a influência numérica das forças ativas destes quadrados mágicos deve estar ligada à influência astrológica dos planetas associados, elaborando assim talismãs nos momentos propícios, de influência benevolente dos planetas. Como mencionamos anteriormente, Paracelso, na sua obra “Os Sete Livros de Archidoxia Mágica”  dá-nos detalhes muito precisos da construção desses talismãs com imagens astrológicas de um lado, e quadrdos mágicos do outro, sempre com intenções exclusivamente terapêuticas. No seu primeiro livro, Paracelso resume este conhecimento mágico de cura:

“Também os sinais, os caracteres e as letras têm a sua força e a sua eficácia. Se a natureza e a essência própria dos metais, a influência e o poder do céu e dos planetas, o significado e o arranjo dos caracteres, sinais e letras, se harmonizam e estão em concordância com a observação de tempos e horas, em que é que isso impediria que um sinal ou selo devidamente construídos  possuissem a sua força e a capacidade de operar? Por que motivo, para um indivíduo num estado normal de saúde, tudo isso não valeria a pena para curar uma dor de cabeça ou melhorar a visão? Porque é que tal coisa não seria bem empregue para as pedras nos rins? E porque é que isso não aliviaria, de forma semelhante, aqueles que fatigam o seu corpo à força de ingerir outros remédios?”

Publicado na Revista Esfinge de Espanha, setembro de 2018

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