Tempo e Duração do Ponto de Vista Filosófico e Científico – 1ª parte

“O tempo não existia, pois jazia dormindo no Seio Infinito da Duração.”

H. P. Blavatsky

Este trabalho começa refletindo sobre algumas ideias de H.P. Blavatsky:

O “Tempo” é apenas uma ilusão produzida pela sucessão dos nossos estados de consciência na nossa jornada através da Duração Eterna, e não existe onde não existe consciência onde possa produzir-se a ilusão, mas “jaz dormindo”.

O Presente é apenas uma linha matemática que separa a parte da Duração Eterna que chamamos de Futuro, da outra parte que chamamos de Passado. Não há nada na terra que tenha uma verdadeira duração, pois nada permanece inalterado, ou é o mesmo, durante uma milionésima parte de um segundo; e a sensação que experimentamos da realidade da divisão do Tempo que, se conhece como Presente, vem-nos da impressão do vislumbre momentâneo, ou sucessivos vislumbres, das coisas que os nossos sentidos nos comunicam, à medida que passamos essas coisas da região do ideal, que designamos o Futuro, para a região das memórias a que damos o nome de Passado.

Da mesma forma, experimentamos uma sensação de duração no caso da faísca elétrica instantânea, a causa de ter sido impressionada a retina e continuar a impressão. As pessoas e as coisas reais e efetivas não são apenas o que se vê num qualquer momento, mas são constituídas pela soma de todas as suas diversas e mutáveis condições, desde o momento em que aparecem na forma material até desaparecerem da terra.

Estas “somas totais” existem por toda a eternidade no Futuro, e passam gradualmente através da matéria para existir em toda a eternidade no Passado. Ninguém dirá que uma barra de metal lançada no mar, começou a existir quando deixou o ar, e que cessou de existir assim que entrou na água; nem a barra consistia unicamente na secção transversal da mesma, que coincidiu em qualquer momento com o plano matemático que separa e ao mesmo tempo une a atmosfera com o Oceano. Assim sucede com as pessoas e as coisas que, caindo do “vai ser” para o “foi”, do Futuro no Passado, momentaneamente mostram aos nossos sentidos na forma de uma secção transversal do seu todo, à medida que vão passando através do Tempo e do Espaço [como matéria] no seu caminho de uma a outra eternidade: e estas duas eternidades constituem aquela Duração em que há apenas algo que tem verdadeira existência, a qual perceberiam os nossos sentidos se estivessem aptos a conhecê-la.

ESTÂNCIA I, A EVOLUÇÃO CÓSMICA NAS SETE ESTÂNCIAS DO LIVRO DE DZYAN. Cosmogénese, Volume II da Doutrina Secreta. H. P. Blavatsky

Estamos perante conceitos muito abstratos, profundos e difíceis de compreender pela mente humana. A partir da leitura do texto anterior podemos deduzir que o Tempo, na sua parte material ou manifestada (tempo), pertence ao chamado mundo ilusória, ou seja, àquele que aparece e desaparece, que tem uma origem e, portanto, um final. Percebemos isso porque ainda estamos igualmente nesse mundo, um mundo polar, um mundo de extremos. O mesmo aconteceria com a Duração, com o matiz de que tal duração significaria um tempo, como uma soma, como um todo.

Cronos, o tempo manifestado, castrando seu pai Urano, o Tempo Absoluto. Dominio Público

O uso aparentemente paradoxal da expressão “Sétima Eternidade”, dividindo assim o indivisível, é confirmado na filosofia esotérica. Esta última divide a duração sem limites, em Tempo incondicionalmente eterno e universal (Kâla), e em tempo condicionado (Khandakâla). O uno é a abstração ou noúmeno do Tempo Infinito, o outro é fenómeno, aparecendo periodicamente como o efeito de Mahat, a Inteligência Universal, limitada pela duração Manvantárica.

ESTÂNCIA III, O DESPERTAR DO KOSMOS. Cosmogénese, Volume I da Doutrina Secreta. H. P. Blavatsky.

Aqui define claramente a Duração como o Tempo total, soma o agregado da Alma do Tempo (seu noúmeno) e o tempo manifestado.

A aparição e a desaparição do Universo descrevem-se como a expiração e a inspiração do “Grande Alento”, que é eterno; e que sendo Movimento, é um dos três aspetos do Absoluto, sendo os outros dois o Espaço Abstrato e a Duração. Quando o Grande Alento se expele, é chamado o Sopro Divino, e considera-se como a respiração da Deidade Incognoscível – a Existência Única – a qual exala um pensamento, por assim dizer, que se converte no Kosmos. Da mesma forma, quando o Alento Divino é inspirado, o Universo desaparece no seio da Grande Mãe, que dorme então “envolta nas suas Sempre Invisíveis Vestes”.

ESTÂNCIA I, A EVOLUÇÃO CÓSMICA NAS SETE ESTÂNCIAS DO LIVRO DE DZYAN. Cosmogénese, Volume I da Doutrina Secreta. H. P. Blavatsky.

Falávamos antes da parte do material ou manifestada do Tempo e da Duração. No entanto, todo o manifestado que responde a um Arquétipo não manifestado, que é a sua Alma, a sua Causa e, no parágrafo anterior, Helena Blavatsky descreve-nos esses Arquétipos, que estão fora do mundo manifestado, que pertencem à Existência real não manifestada, não sujeita a mudanças. Em definitivo, ao mundo sem limites do Ser.  

As Almas do Espaço, do Movimento e da Duração pertencem ao triplo aspeto do “Grande Alento” ou Deidade Incognoscível, A Existência Única, com a qual podemos conceber uma relação entre Espaço, Movimento e Duração.

É evidente que o tempo manifestado, o que conhecemos, sentimos e entendemos está relacionado com o movimento manifestado, que também conhecemos, sentimos e entendemos e com o espaço manifestado. Percebemos o tempo em relação ao movimento das coisas e ao espaço que ocupam em todos os planos, ou seja, sentimos o passo do tempo através do movimento das coisas no espaço.

O conceito de Eternidade é semelhante ao de Duração, já que o “Grande Alento” é eterno, e quando o “Grande Alento” se expele, ou seja, se manifesta, é chamado de forma diferente: o Sopro Divino.

Tudo isso é confirmado pelos seguintes parágrafos:

A doutrina esotérica ensina, o mesmo que o budismo e o bramanismo, e até a Cabala, que a Essência una, infinita e desconhecida, existe em toda a eternidade, e que é já passiva, ou já ativa em sucessões alternadas, harmónicas e regulares.

PROÉMIO. Cosmogénese, Volume I da Doutrina Secreta. H. P. Blavatsky.

Usando uma metáfora dos livros secretos, que explicará a ideia de um modo mais claro, uma expiração da “essência desconhecida” produz o mundo; e uma inalação faz com que desapareça. Este processo tem ocorrido em toda a eternidade, e o nosso Universo atual é apenas uma das infinitas séries que não tiveram um princípio nem terão fim.

PROÉMIO. Cosmogénese, Volume I da Doutrina Secreta. H. P. Blavatsky 

O Elemento Eterno e único, ou o Veículo que contém os elementos, é o Espaço sem dimensões em nenhum sentido; coexistente com a Duração Infinita, com a Matéria Primordial (portanto, indestrutível) e com o Movimento, “Movimento Perpétuo”, Absoluto, que é o “Hálito” do Elemento único. Este Hálito, como se vê, jamais poderá cessar, nem mesmo durante as Eternidades Praláyacas.

ESTÂNCIA II, A IDÉIA DE DIFERENCIAÇÃO. Cosmogénese, Volume I da Doutrina Secreta. H. P. Blavatsky. 

Varuna, O Tempo Absoluto. Public Domain

A figura geométrica que representa a Alma do Tempo é o Círculo:

O Círculo era em todas as nações o símbolo do Desconhecido – “O Espaço Sem Limites”, o aspeto abstrato de uma abstração sempre presente – a Deidade Incognoscível. Ele representa o Tempo sem limites na Eternidade.

ESTÂNCIA V. FOHAT, O FILHO DAS HIERARQUIAS SEPTENÁRIAS. Cosmogénese, Volume I da Doutrina Secreta. H. P. Blavatsky: 

Reafirmando a relação da Deidade Absoluta com o Movimento e o Tempo, temos o seguinte parágrafo:

“… E estamos conformes com o que entendemos por palavra Deus, não o grosseiro antropomorfismo, que ainda é a coluna vertebral da nossa teologia atual, mas o conceito simbólico daquilo que é Vida e Movimento do Universo, conhecer qual, na ordem física, é conhecer o tempo passado, presente e futuro, na existência das sucessões de fenómenos; e conhecer qual, na ordem moral, é conhecer o que tem sido, é e será, dentro da humana consciência. (Ver Science and the Emotions. Discurso proferido em South Place Chapel, Finsbury, Londres, 27 de dezembro de 1885).”

Nota 128 da Cosmogénese, Volume II da Doutrina Secreta. H. P. Blavatsky 

Neste parágrafo também se reafirma a ideia de que o Tempo tem uma Alma e um corpo, que é o que o ser humano percebe atualmente (sucessões de fenómenos), como foi comentado anteriormente.

Eis aqui as palavras de um Mestre: “Sinto-me exasperado ao ter que usar estas três palavras infelizes – Passado, Presente e Futuro – pobres conceitos das fases objetivas do todo subjetivo, tão mal adaptadas para o objeto como um machado para trabalhos delicados de escultura”.

ESTÂNCIA I, A EVOLUÇÃO CÓSMICA NAS SETE ESTÂNCIAS DO LIVRO DE DZYAN. Cosmogénese, Volume I da Doutrina Secreta. H. P. Blavatsky 

Passamos agora a falar destes conceitos em relação direta com o Ser Humano.

“A Eternidade do Peregrino” é como um piscar de olhos da própria Existência”, de acordo com o Livro de Dzyan. “A aparição e a desaparição de Mundos, são como o fluxo e refluxo regular das marés”.

“Peregrino” é o nome dado à nossa Mónada (os Dois em um) durante o seu ciclo de encarnações. É o único Princípio imortal e eterno que existe em nós, sendo uma porção indivisível do todo integral, o Espírito Universal, do qual emana, e no qual é absorvido no final do ciclo. Quando se diz que emana do Espírito Único, emprega-se uma expressão grosseira e incorreta, por falta de palavras apropriadas.

PROÉMIO. Cosmogénese, Volume I de Doutrina Secreta. H. P. Blavatsky.

A mesma dificuldade, devido à linguagem, é encontrada na descrição dos “estados”, pelos quais passa a Mónada. Metafisicamente falando, é claro, que é absurdo falar do “desenvolvimento” de uma Mónada, ou dizer que se converte em “homem”… É pela razão de que uma Mónada não pode progredir nem desenvolver-se, nem mesmo ser afetada por mudanças de estado pelas quais passa. Ela não é deste mundo ou plano, e pode ser comparada apenas a uma estrela indestrutível de luz e fogo, divinos, lançada à nossa terra, como uma tábua de salvação para as personalidades nas quais reside. A estas últimas cabe-lhes apegar-se a ela; e, assim, participando da sua natureza divina, obter a imortalidade. Abandonada a si mesma, a Mónada não se uniria a ninguém; mas, tal como a tábua, é arrastada para outra encarnação pela incessante corrente da evolução.

FACTOS E EXPLICAÇÕES ADICIONAIS REFERENTES AOS GLOBOS E MÓNADAS. Cosmogénese, Volume I da Doutrina Secreta. H. P. Blavatsky.

Ra viajando na sua barca. Public Domain

Devemos também recordar a todos aqueles que pretendem provar que os antigos egípcios não ensinavam a Reencarnação, que a “Alma” (o Ego ou Eu) do Defunto, se diz que vive na Eternidade; que é imortal, “coetânea com a Barca Solar”, ou seja, com o Ciclo da Necessidade, com a que desaparece. Esta “Alma” surge do Tiaou, o Reino da Causa da Vida, e une-se aos vivos na Terra durante o dia, para regressar ao Tiaou todas as noites. Isto expressa as existências periódicas do Ego.

ESTÂNCIA VII. OS PAIS DO HOMEM NA TERRA. Cosmogénese, Tomo I de Doutrina Secreta. H. P. Blavatsky.

Esta doutrina é profundamente igualitária, dá a todos os seres humanos a igualdade essencial, da qual tanto presumem alguns grupos e que apenas aceitam de forma superficial. O Ser Humano participa da mesma Eternidade e Imortalidade da qual participa a Deidade Absoluta. E, no próximo parágrafo, essa igualdade é estendida a todos os seres. Portanto, não há discriminação no sentido negativo desta palavra, não existem seres inferiores com um destino inferior e seres superiores com um destino superior. Existem seres com diferentes caminhos, experiências, no mundo manifestado, sujeitos à parte material do Tempo, mas todos pertencem à Alma Universal, são inseparáveis dela em toda a Eternidade:

Todas as coisas que são, eram e serão, SÃO eternamente, até mesmo as Formas incontáveis, que são finitas e perecíveis apenas no seu aspeto objetivo, mas não na sua forma ideal. Elas existiram como Ideias na Eternidade e, quando desaparecerem, existirão como reflexões.

RESUMO. Cosmogénese, Volume I de Doutrina Secreta. H. P. Blavatsky.

Contemplando a eternidade…

Antes que fossem lançados os fundamentos da terra,

––––––––––––––––––––––––––––––––––––––

Tu eras. E quando a chama subterrânea

Quebre a sua prisão e devore a forma,

Todavia serás Tu, como eras antes,

Sem sofrer nenhuma mudança quando o tempo não exista. 

Oh, mente infinita, divina Eternidade!

Rig Veda (COLEBROOKE)
Partilhar

Deixar uma resposta