Téon de Esmirna e a matemática sagrada

A teoria cosmológica dos números, que Pitágoras aprendeu com os hierofantes egípcios, é a única capaz de conciliar a matéria e o espírito demonstrando matematicamente a existência de cada um destes princípios pela existência do outro.

As combinações esotéricas dos números sagrados do universo resolvem o árduo problema e explicam a teoria da irradiação e o ciclo das emanações. As ordens inferiores, antes de se converterem nas mais elevadas, devem emanar das mais altas e espirituais e evoluir em progressiva ascensão até que, chegadas ao ponto de conversão, se reabsorvem no infinito.

H.P.Blavatsky. Ísis sem Véu, Capítulo I.

Bela experiência é caminhar pelo passeio marítimo da cidade de Esmirna, de dia ou de noite onde as luzes da cidade se assemelham a gigantescos barcos à distância, pois terras e águas confundem-se no golfo durante a noite. Mais bela ainda se torna esta vivência acompanhado de amigos filósofos com quem debater sobre as grandes questões da vida e da morte.

Esmirna é uma cidade de jovem dinamismo, apesar do peso indiscutível da sua história, como “pérola do Egeu”. Quase não há marés aquáticas no Mediterrâneo, mas que marés humanas neste berço da civilização ocidental! E Esmirna sofreu o embate dos séculos e dos povos que se apoderaram dela, ocupando-a pacificamente ou com brutal violência. Hoje, com mais de 4 milhões de habitantes, é a terceira maior cidade da Turquia. Mas tomemos consciência, com a visão de águia do espírito que vê diante de si, a partir das alturas, o decurso dos milénios:

Formou parte do império hitita, foi ocupada pelos eólios vindos da Grécia a partir do ano 1000 a.C., fugindo do caos posterior à queda da civilização micénica, devastada pelas invasões dóricas. Mais tarde, foi ocupada pelos jónios e deu à luz o maior vate do mundo antigo, o Cantor da Guerra de Tróia, Homero. Vemos, durante este período, o apogeu desta cidade. Os colonos de Colofón conquistam-na no ano 688 a.C. convertendo-a numa cidade estado da Liga Jónica. No ano 600 a.C. são os lídios que se apoderam dela e 50 anos depois os persas. Arrasada, é reconstruída por Alexandre Magno (ou melhor, ele constrói uma nova cidade junto à antiga). Depois conquistam-na os selêucidas e mais tarde Pérgamo, cidade rival.

Combate ao lado dos romanos neste período e permanece debaixo da proteção das suas Águias, acolhendo muitos exilados da Urbe. Põe-se ao lado do rei do Ponto Mitrídates desde o ano 89 até ao ano 85 a.C. na sua guerra contra Roma e o general romano Sila conquista-a obrigando todos os seus habitantes a desfilar nús em pleno inverno, sendo incorporada, depois da paz de Dárdanos, como uma das cidades da província romana da Ásia.

No cristianismo assume especial importância e é nomeada no Apocalipse como uma das sete igrejas da Ásia, e o Rei do Mundo adverte-a de que “não tema nada do que tem a padecer”e ensina que “aquele que vencer não será afetado pela segunda morte”. Após a paz relativa do Império Romano, e cinco séculos em poder dos bizantinos, chegam de novo vagas de povos invasores, ou simplesmente, elites conquistadoras que se apoderam da sua “maquinaria social”.

No ano 1084 apoderam-se dela os turcos seljúcidas, durante treze anos, até ser de novo recuperada pelo poder bizantino. No ano 1322 passa debaixo do ceptro dos otomanos, pouco depois debaixo do de Chipre e, mais tarde, do reino de Veneza e depois dos Reinos Pontifícios.

O ano 1402 é um dos pontos negros da sua história milenar: é de novo saqueada e assassinados na sua maior parte os seus habitantes, para logo cair de novo debaixo do jugo ou controlo dos otomanos no ano 1424, e até à desintegração deste império após a Primeira Guerra Mundial, e da ocupação grega, no final da mesma. Em 1922, com a guerra greco-turca é recuperada pela nova Turquia de Ataturk.

Que marés as da História! Sentem-se, na vertigem dos séculos, os avanços e retrocessos das potências da ordem e do caos, a Roda da Vida elevando até à luz ou esmagando os cadáveres dos infelizes que pensaram ou quiseram, egoistas, servir-se dela ou, simplesmente, viveram atados ao seu jugo fatal, que alguns chamam “Fortuna”! Já nos advertiram os filósofos pitagóricos: “Não subas para o carro rápido da fortuna se não queres perecer debaixo do seu jugo, o filósofo viaja a pé”.

Mas no meio dessas marés, encontramos também em Esmirna aqueles que cultivavam amizade com as Coisas Eternas, Filósofos enamorados da verdade (filaleteus), como Apolónio de Tiana, depois da sua viagem ao Tibete, ensinando e procurando a estátua de Palamedes, inventor, segundo Higínio, do alfabeto grego.

Ou o Filósofo Téon com os seus estudos de Matemática Sagrada ou seja dos Números como Entes Divinos, Ideias ou símbolos de Ideias Puras e onde a Aritmética se converte no hieróglifo mais puro da Sabedoria Divina e dos Arquétipos que nela moram e reinam.

Aprendemos que quando a vida e a sua harmonia se desequilibram, quando os ventos da desolação e a peste da injustiça ameaçam a própria condição do ser humano, aqui e ali surgem Escolas de Filosofia. Para equilibrar a desgraça com a esperança nos tesouros mágicos da alma humana, esperança no poder da sua luz e do seu fogo. Para nos prender firmemente à rocha que desafia a tempestade, para fazer crescer um coração de diamante no peito dos eleitos, um coração que não cede a nada, mas que transparece a pura luz do real. Ontem, como hoje, essas Escolas eram os faróis do saber humano e divino e salvavam os discípulos do fanatismo, da ignorância e do caos, sempre devoradores de almas.

A sabedoria do matemático e filósofo Téon, nascido nesta cidade, encontra-se dentro da ação destas Escolas de Filosofia que são, como Prometeu, modeladoras do melhor do caráter humano.

Pouco se sabe da sua vida; supomos que nasceu e viveu nesta cidade, pois por altura da sua morte um dos seus filhos mandou construir um busto com uma inscrição a ele dedicada. Ptolomeu refere-se no Almagesto a um Téon, a que a posteridade chamou “o Antigo“, para o diferenciar de Téon de Alexandria, o pai da divina Hipátia.

Assim, estima-se que viveu entre os anos 70 d. C. e 135 d. C, aproximadamente, claro. É conhecido pela sua obra “Matemáticas para entender Platão“, pois outras obras suas de comentários a filósofos e matemáticos da época perderam-se. Uma recente descoberta num manuscrito árabe permitiu saber que escreveu outra obra sobre a ordem pela qual devem ser lidas as obras de Platão, um debate de viva atualidade, e com mais de dois mil anos.

O seu livro “Matemáticas para entender Platão“ é pródigo em todo o tipo de citações clássicas, pelo que sabemos que a cultura de Téon era enciclopédica. A obra do platónico inglês Thomas Taylor (1758-1835) “The Theoretic Arithmetic of the Pytagoreans“ divulgou amplamente o conhecimento deste livro na cultura ocidental.

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“Matemáticas para entender Platão“ (Expositio rerum mathematicarum ad legendum Platonem utilium), autoria de Téon de Esmirna, Biblioteca Nacional Marciana, Veneza, Séc. XII. Public Domain

Recordemos que para Platão, como bem refere em A República, e para este filósofo de Esmirna, a matemática é a escada que nos permite aceder ao mundo inteligível, a partir da confusão (para a alma) das sensações e do vago das opiniões. É quem nos abre o olho da Alma para a visão do Verdadeiro, olho fechado, vítima da necessidade, quando esta se precipita na vida material; esquecida de si própria e vítima de um conhecimento que é, apenas, sensação.

Deste modo, para Téon de Esmirna, a Matemática é como a iniciação nos Mistérios que leva à epopteia final, o êxtase ou rapto divino, fusão com o Todo. Assim o descreve o próprio na sua obra:

“Podemos comparar a filosofia com a iniciação nas coisas verdadeiramente sagradas e com a revelação dos autênticos mistérios. Há cinco partes na iniciação: a primeira é a purificação preliminar, porque a participação nos mistérios não pode ser outorgada indiscriminadamente a qualquer pessoa que o deseje, pois há alguns aspirantes aos quais o heraldo do caminho os afasta, como àqueles cujas mãos são impuras, ou cujo discurso carece de prudência. Mas mesmo aqueles que não são rejeitados devem ser sujeitos a certas purificações. Depois destas purificações vem a admissão aos ritos secretos (que é a iniciação propriamente dita). Em terceiro lugar vem a cerimónia que é chamada “visão plena“ [ou seja, a revelação epóptica].

O quarto nível, que é a finalidade e o objetivo da “visão total“ é o enfaixamento da cabeça e a coroação [investidura e entronização], para que aquele que recebeu as Coisas Sagradas seja ao mesmo tempo capaz, por sua vez, de transmitir a tradição a outros, quer seja através do dadouchos (as cerimónias em que se levam tochas) ou através dos hierofantes (intérpretes das Coisas Sagradas) ou por algum outro ofício sacerdotal. Finalmente, o quinto nível, que é a coroa de todos os que o precedem, é a amizade com Deus, e o disfrute da felicidade que consiste em viver em familiar intimidade com Ele.

É exatamente do mesmo modo que opera a tradição da razão platónica. De facto, começa-se desde a infância com uma certa purificação que consiste no estudo das teorias matemáticas apropriadas. De acordo com Empédocles, “é necessário que aquele que deseja submergir nas puras ondas das cinco fontes comece por purificar-se a si próprio das suas manchas“.

E Platão também diz que se deve buscar a purificação nas cinco ciências matemáticas que são a aritmética, a geometria, a estereonomia, a música e a astronomia. A tradição dos princípios filosóficos, lógicos, políticos e naturais corresponde à iniciação. Plena visão chama ele à ocupação do espírito com as coisas inteligíveis, com a verdadeira existência e com as ideias. Finalmente, ele diz que o enfaixamento e a coroação da cabeça deve ser considerada como a faculdade, que é dada ao adepto por aqueles que o ensinaram, para conduzir outros à mesma contemplação.

O quinto estado é essa felicidade consumada de que ele começa a desfrutar e que, segundo Platão, “ o identifica com a Divindade, tanto quanto é possível“.

Os românticos, com as suas arrebatadas intuições, bem entenderam isto. O poeta Novalis, famoso pelo seu hino à Noite, diz num dos seus poemas:

O verdadeiro matemático [filósofo]é entusiasta por si
Sem entusiasmo não há matemáticas.
A vida dos Deuses é matemáticas.
Todos os mensageiros divinos devem ser matemáticos.
A religião é pura matemática.
Só se avança na matemática através da teofania“.

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Retrato de poeta Novalis, autoria de Franz Gareis, cerca de 1799. Public Domain

Evidentemente esta matemática não é a que vulgarmente conhecemos, e quando Heródoto chama “matemáticos“ aos sábios egípcios, submergidos nas suas elevadíssimas contemplações, esta imagem não é exatamente igual à dos atuais matemáticos querendo febrilmente demonstrar um teorema.

Nem toda a atividade mental com números e teoremas pode ser chamada matemática, se não há uma “leitura“ da “Mente Divina“. Muitas “composições“ podemos realizar dando cacetadas num piano, mas não são necessariamente música nem nelas há inspiração; idem com as cores de um pintor, sobretudo quando estas são inclusive um reflexo da pura emotividade divina.

Nem juntando as letras do alfabeto, de qualquer maneira, escrevemos com a grandeza de um Shakespeare. H. P. Blavatsky arremete contra a matemática vulgarizada, despojada da sua condição divina, num onanismo psíquico de intelectuais vítimas das suas obcessões. Um matemático, no sentido platónico do termo, não pode ter medo da morte, porque a convivência com os seres “divinos“ o libertou da menor sombra de temor e de qualquer outra paixão. Na sua Ísis sem Véu, ela diz:

“Os cabalistas versados no sistema pitagórico de números e linhas sabem perfeitamente que as doutrinas metafísicas de Platão se baseiam em rigorosos princípios matemáticos. A este propósito diz o Magicón: As matemáticas sublimes estão relacionadas com a ciência superior, mas as matemáticas vulgares não são mais que falaz fantasmagoria cuja encomiada exatidão dimana do convencionalismo dos seus fundamentos”.

Se Gödel tivesse levantado a cabeça!

O livro de Téon de Esmirna começa com uma explicação da utilidade da Matemática e da ordem pela qual esta deve ser estudada. Fala do Uno e da Mónada, dos números pares (associados ao feminino, à resistência) e ímpares (associados ao masculino e ao impulso), dos primos e dos compostos; e começa depois com um dos grandes mistérios da matemática grega: como dividiam os tipos de números consoante se tinham disposto geometricamente (no plano ou em volume) um número de pontos ou esferas idênticas (fazendo de mónadas).

Fala, assim, dos números quadrados (estes são os únicos que nos são familiares e sabemos que 9 é o quadrado de 3, 16 de 4, etc.), os números paralelogramos, triangulares, pentagonais, hexagonais, etc. Passa depois a explicar os números piramidais, laterais, diagonais, deficientes, abundantes e perfeitos. Número perfeito é por exemplo o 28, pois é soma de todos os seus divisores (1, 2, 4, 7 e 14).

A segunda parte desta obra descreve como o esqueleto formal da música é pura matemática, dando as chaves da harmonia. Fala de intervalos, consonâncias, do tom e meio tom, dos distintos tipos de escalas, dos números que regem as consonâncias, da razão ou proporção, dos diferentes tipos de médias (a aritmética, a geométrica e a harmónica que depois estudaria filosoficamente em detalhe Luca Paccioli e Mathyla Gika), da Tetraktis ou Década Pitagórica, e das propriedades dos números contidos na Década.

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Tetraktis ou Década Pitagórica. Public Domain

A respeito desta e seguindo o raciocínio de Téon e outros filósofos neoplatónicos e orientais, H. P. Blavatsky na sua colossal Doutrina Secreta vai deixar ensinamentos sublimes no seu artigo “A Cruz e a Década Pitagórica“ onde diz, por exemplo:

“Para eles, todo o Universo metafísico e material estava contido e podia expressar-se e descrever-se pelos dígitos que encerra o número 10, a Década Pitagórica. Esta Década, que representa o Universo e a sua evolução desde o Silêncio e os Abismos desconhecidos da Alma Espiritual ou Anima Mundi, apresentava dois lados ou aspetos ao estudante. Podia ser aplicada, e foi, inicialmente ao Macrocosmo, a partir do qual descia até ao Microcosmo ou homem.

Então, existia a ciência puramente intelectual e metafísica, ou “Ciência Interna“, assim como a meramente materialista ou “ciência da superfície“, e as duas podiam explicar-se pela Década e estar contidas nela. Podia estudar-se, numa palavra, tanto pelo método dedutivo de Platão como pelo indutivo de Aristóteles.

O primeiro partia de uma compreensão divina, em que a pluralidade emanava da unidade, ou os dígitos surgiam da Década, apenas para serem finalmente reabsorvidos no Círculo infinito. O último dependia apenas da perceção dos sentidos, em que a Década podia considerar-se ora como a unidade que se multiplica ora como a matéria que se diferencia, estando limitado o seu estudo à superfície plana, à cruz, ou aos sete que procedem dos dez, ou ao número perfeito, tanto na Terra como no céu. Este sistema foi trazido por Pitágoras da Índia, juntamente com a Década“.

Na terceira parte do livro, Téon dedica-se à Astronomia, ao estudo do céu como uma encarnação de Matemática viva e móvel, pois os astros são “números corporais“. Estuda a ordem dos planetas e luminárias (considerando a Terra o centro, pois é a partir de onde se faz a observação) e fundamenta a “Música das Esferas“, ensinamento pitagórico e vivência mística dos iniciados nos seus êxtases. Shakespeare, a propósito desta Música Celestial que fazem os astros nos seus solenes movimentos, dir-nos-ia, em “O Mercador de Veneza“:

“Look how the floor of heaven is thick inlaid with patines of bright gold; there‘s not the smallest orb which thou behold’st but in his motion like an angel sings, still quirind to the Young-eyed cherubins; such armony in inmortal souls; but, whilst this muddy vesture of decay doth grossly close it in, we cannot hear“.

“Olha como a abóbada celeste está cravejada de inumeráveis tons de ouro resplandecente! Não há o mais pequeno destes globos que contemplas que com os seus movimentos não produza uma angelical melodia que se harmonisa com as vozes dos querubins de olhos eternamente jovens. As almas imortais têm nela uma música assim; mas até que caia esta envoltura de barro que as aprisiona grosseiramente entre os seus muros, não podemos ouvi-la“.  

Comentaremos a título de exemplo, alguns dos ensinamentos deste livro que representou uma revolução na história da matemática e um grande aporte na filosofia.

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Abóboda estrelada da Capela do Condestável, Burgos.GNU Free Documentation License

O significado da palavra Logos

Por exemplo na parte 1 há um capítulo sobre as distintas formas de entender a palavra LOGOS . Diz Téon que os discípulos de Aristóteles entendem nesta palavra mais de dez significados e logo precisa dos significados que lhe dá Platão:

  1. Pensamento mental sem pronunciar palavras.
  2. Discurso procedente da mente e expresso pela voz.
  3. Causa explicativa dos elementos do universo,
  4. Razão de proporção: a relação de proporção ou razão é também chamada “logos“, e é neste sentido que dizemos que há uma relação entre uma coisa e outra.

Este sentido matemático é o que Téon vai estudar na sua obra. É curioso como uma só palavra, “logos“, designa (e detemo-nos na versão platónica pois na aristotélica são muitas mais) os seguintes significados: “palavra“, “discurso“, “ordem“ implícita na natureza e “razão“ ou “proporção“ (numérica ou conceptual, como por exemplo, ao estabelecer uma comparação entre dois termos). Não podemos esquecer o evangelho de São João: “No princípio era o Logos, e o Logos estava junto a Deus e o Logos era Deus“.

H. P. Blavatsky dá-nos a chave quando diz que “o significado esotérico da palavra Logos – Linguagem, Palavra, Verbo – é a conversão do pensamento oculto na expressão objetiva, como sucede com a imagem na fotografia“. É muito sugestiva esta definição e muito exata.

A palavra sonora é “logos“, porque o pensamento, que é inaudível, converte-se em algo objetivo, com forma, com uma série de tonalidades, ritmos e acentos e timbres sonoros consoante a série de sons pronunciados, estruturados segundo a matemática musical da linguagem falada. O pensamento é “logos“, porque dá forma objetiva na mente (e usando além disso uma linguagem específica, com a sua sintaxe própria e “sons mentais“) a uma Ideia usando as regras do pensamento como uma matemática que de facto é, que permite que a Ideia se corporise numa forma, ainda que esta seja mental.

O Demiurgo, segundo Platão, é Logos, porque traduz nas formas da natureza o Pensamento Divino, é o que a filosofia islâmica chama a “pluma de Deus“ e a esotérica, Fohat, o Fogo Criador.

Num trabalho anterior demonstrei como o Crismão, um dos primeiros símbolos para representar Jesus Cristo como Logos Divino, está formado pelas letras gregas Alfa (1), Xi (60), Ro (100) e Omega (800), que lidas tal e como estão e sem contar os números zeros (um dos procedimentos da cabala hebraica e grega antiga) é 1618, ou seja, o valor do que hoje chamamos Número ou Proporção de Ouro, a Divina Proporção, pois simboliza o Logos.

Com efeito, vemos como não só na arte como em toda a Natureza é esta a proporção que ordena tudo, é a perfeita chave harmónica, em si própria ou expressa nos termos da Série de Fibonacci. Na mesma matemática fractal é a “Ideia“ que se converte num padrão matemático iterativo, com a sua dimensão “fraccionária“ (números não inteiros), criando assim a forma das árvores, das montanhas, das nuvens ou das estrelas.

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Crismão em baixo-relevo, Igreja de Santa Maria de Cóll, Vall de Boí, Catalunha, Espanha (Séc. XII). GNU Free Documentation License

A mónada e os números primos (Téon chama-lhes primeiros“)

A mónada é a raiz de tudo, pois a unidade é raiz ou semente do par e do ímpar, é um número primo e é um número perfeito (o gerador de ambos). Com efeito, a unidade só é divisível por ela própria e a soma das suas partes (que não tem; na unidade a única “parte“ é o todo) é ela própria. Mas depois dela os números mais importantes são os “primeiros“, pois são os que “medem“ ou originam todos os outros e a que Téon chama também imparmente ímpares ou lineares, pois só existem numa dimensão, ou não compostos, uma vez que são elementares, simples e, no entanto, como demonstrou Euclides, infinitos. Mas retornemos, como fazem os próprios números, à Mónada ou Unidade, vejamos o que diz Téon a respeito:

“A Unidade é o princípio de todas as coisas e a mais dominante de tudo o que existe: todas as coisas emanam dela e ela não emana de nada. É indivisível e é cada coisa em potência. É imutável e nunca se afasta da sua própria natureza por multiplicação (1×1=1). Tudo o que é inteligível e não pode ser engendrado existe nela: a natureza das ideias, o próprio Deus, a alma,o belo e o bom e cada essência inteligível como o belo, o justo,o igual, já que nós concebemos cada uma destas coisas como sendo una e existindo em si própria“.

As coisas materiais, apesar da sua aparente unidade, por exemplo uma maçã, podem ser divididas até ao infinito, pois na matéria toda a unidade é relativa e, portanto aparente. Téon chama-lhes “unidades“, enquanto à verdadeira unidade inteligível chama Mónada, que “vive sempre em solidão“, pois a dimensão da Mónada é diferente da dos próprios números.

“Os números são uma coleção de mónadas ou a progressão do múltiplo começando e retornando à mónada (por meio da sucessiva adição ou subtração de uma unidade). Já que a mónada é a última quantidade, permanece firme e fixa, o princípio e elemento dos números que, quando desvinculados do múltiplo por meio da subtração e isolados de todos os números, é impossível continuar a dividir“.

É curiosa a diferença da nossa matemática atual. Para a filosofia grega a mónada é tal, é una, e não pode ser partida, as unidades materiais sim, mas noutras unidades materiais mais pequenas ½ expressa uma relação, fração ou proporção entre um e dois, não é um número, tal como ¾, 4/5, etc. A mónada não pode ser diminuida. Os números não são pontos de uma reta Real, há muito materialismo e simplificação labiríntica nesta forma de entender estes números, que são realidades em si próprias, surgidas a partir da mónada. A única coisa real não é a reta Real, mas a unidade. Se explicassem a um grego o conceito da reta Real, talvez dissesse que sim, claro, que é o Real, a Unidade, a Mónada.

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Método de Eratóstenes  para determinar a circunferência da Terra. Creative Commons Attribution-Share Alike 4.0 International

A esfericidade da Terra

Continuando com Eratóstenes, ele demonstra com todo o tipo de argumentos que a Terra é esférica, argumentos que, por exemplo, Santo Agostinho teria tido utilidade em rever para não confundir tantos milhões de almas durante toda a Idade Média com os seus sofismas retóricos. É assombroso que dê uma medida do diâmetro terrestre quase exata, pois se considerarmos o estádio ático, de 600 pés, e uma medida de 177.6 metros, Téon diz-nos que mede 80 182 estádios, o que nos dá então 14 240 kms, quando hoje sabemos que tem 12 756 kms. Um erro de menos de 12%!!!

Claro, ele parte do princípio de que a Terra, segundo a velha tradição astrológica, que não astronómica, está no centro do universo, pelo que para explicar os movimentos dos planetas tem de usar os epiciclos para justificar os aparentes retrocessos de alguns planetas. Ainda que Aristarco de Samos e as Escolas de Mistérios ensinassem o sistema heliocêntrico, sem dúvida, este ficou reservado aos iniciados e não foi reencontrado até Copérnico, amplificado filosoficamente (infinitos mundos, infinitas terras, infinitas humanidades) por Giordano Bruno e tornado preciso por Kepler.

Pouco a pouco, as Matemáticas que nos permitiram penetrar os mistérios do Ser e da Filosofia Pura, continuando a visão aristotélica, foram empregues para conhecer melhor o mundo, e dominá-lo. O problema é que tendo-o dominado com a nossa soberba e egoísmo, os números, como base de todas as ciências, converteram-se em instrumentos da nossa avidez, da nossa cobiça e ainda das nossas fantasias onírico-matemáticas. Ficaram como frios esqueletos, estruturas formais sem conteúdo nem significado. Já não eram as estrelas do nosso céu interior, como as consideraria Platão, mas simples seixos nas nossas mãos com que se modela a realidade à nossa medida, ainda que esta medida viciada tenha dado nascimento aos mais terríveis pesadelos.

É necessário o retorno a uma Matemática que chamaremos sagrada – ainda que a verdadeira Matemática sempre tenha sido sagrada, pela sua relação com a Verdade, a Justiça e a Beleza – pois ajustará não apenas as nossas mentes, mas também as nossas almas com o grande coração do Real.

Como ensinou H. P. Blavatsky , com a qual quis começar e terminar este artigo:“Para o amante da verdadeira Sabedoria oriental Arcaica; para aquele que não adora em espírito nada que não seja a Unidade Absoluta, esse grande Coração sempre em pulsação, que palpita em todo o lado, em cada átomo da natureza; para ele, cada um destes átomos contém o germe com o qual pode erguer a Árvore do Conhecimento, cujo fruto dá a Vida Eterna e não só a física.

Para ele a cruz e o círculo, a Árvore ou o Tau – mesmo depois de todos os símbolos relacionados com eles terem sido assinalados e lidos, um após outro – continuam, no entanto, a ser um profundo mistério no seu Passado, e só a este Passado ele dirige o seu olhar ansioso.

Pouco lhe importa que seja a Semente de onde provém a Árvore genealógica do Ser, chamado Universo, nem tão pouco lhe interessam os Três em Um, o triplo aspeto da Semente – a sua forma, cor e substâncias – ou melhor a Força que dirige o seu crescimento, sempre misteriosa, sempre desconhecida; pois esta força vital, que faz a Semente germinar, abrir-se e dar rebentos, forma logo o tronco e ramos, os quais, por sua vez, se dobram como as ramagens do Ashvattha, a Árvore santa de Bodhi [a Luz Espiritual], deitam a sua semente, se arraigam e procriam outras árvores – esta é a única FORÇA que tem realidade para ele, por ser o eterno Alento da Vida.

O filósofo pagão procurava a causa, o moderno contenta-se apenas com os efeitos e procura a primeira nos últimos. O que há mais além, não se sabe, nem tão pouco importa ao gnóstico moderno, rejeitando assim o único conhecimento sobre o qual pode basear a sua ciência com toda a segurança“.

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