TIMEU DE PLATÃO – 2ª parte

Platão fala-nos também da origem do tempo:

TIMEU: “Quando o pai e criador viu que a imagem que nascera dos deuses eternos se movia por si mesma e tinha vida, maravilhou-se e, contente, propôs-se torná-la mais parecida com o modelo. Posto que por acaso este era um ser eterno, ele tentou que, na medida do possível, fosse também perfeito. Certamente a natureza do ser vivente é eterna, e isto não é possível procurá-lo completamente no ser criado. Ele propôs uma imagem em movimento da eternidade e, fixando o céu ao ponto, fez da eternidade, que está sempre no mesmo ponto, uma imagem eterna que avança de acordo com um número que denominamos «tempo»… «era» e «será» são figuras originárias do tempo… mas o que é sempre o mesmo e imutável não se tornará mais velho ou mais novo ao longo do tempo, nem precisa ter sido alguma vez criado, não é agora, nem será…”

Podemos então entender o tempo eterno como uma circulação contínua. O universo assemelhar-se-ia a um coração que bate ritmicamente. Esta seria a imagem móvel da eternidade.

Platão fala posteriormente da criação e das características dos astros, dos animais e dos deuses. De como estes continuaram o processo criador seguindo o modelo de seu pai.

TIMEU: “Faltam ainda criar três espécies mortais. Se não forem criadas, o universo não estará completo, pois não teria em si todas as espécies viventes, e é necessário que as tenha para que seja completamente perfeito”.

Isto recorda-nos como Noé salvou do dilúvio todas as espécies. De novo a linguagem simbólica, que nos diz que no universo, que é uno, não falta nem sobra nada.

Fala-se igualmente da criação do homem, da reencarnação e da vida como aprendizagem, onde o ser humano é responsável e, portanto, causa do seu próprio destino:

TIMEU: “… deviam criar o ser mais piedoso com os deuses dos seres viventes, mas, como a natureza humana é dupla, o melhor género seria o posteriormente chamado varão. Uma vez que se tivessem introduzido por necessidade nos corpos, e entrassem e saíssem deles, seria necessário, em primeiro lugar, que uma sensação de sentimentos violentos fosse natural a todos; em segundo lugar, o amor misturado com o prazer e a dor e, para além destes, medo e ira, quanto os segue e quanto, por natureza, lhes é oposto”. Se os chegassem a dominar, viveriam na justiça, mas se estivessem possuídos por eles, o fariam na injustiça.”

Este texto necessita de uma clarificação, uma vez que Platão expõe na República a absoluta igualdade entre homens e mulheres. De facto, chega a dizer que não há maior diferença entre o homem e a mulher do que a que pode haver entre homens ou mulheres entre si. Do meu ponto de vista, Platão recorre uma vez mais à linguagem simbólica e usa o termo varão como elemento vertical e o termo mulher como elemento horizontal, podendo estar a referir-se à polaridade, valorizando o caminho vertical em relação ao horizontal.

Fala depois sobre a lei da causa e efeito, anteriormente discutida. De como há diferentes oportunidades de superar obstáculos, de como o caminho se vai tornando mais duro à medida que somos capazes de superar esses mesmos obstáculos. Sendo por vezes necessário chegar a situações muito dolorosas até poder alcançá-lo de uma forma total. Trata-se de que reajamos e reagimos mais perante uma dureza maior, uma dor maior.

À procura. Pixabay

Prossegue com o nascimento das partes do corpo do ser humano e as causas e propósitos pelos quais os deuses criaram a sua alma. Diz-nos que a cabeça é “o mais divino e o que governa tudo o que há em nós”, que tem forma esférica “tratando de imitar a forma redonda do universo”, que “a alma é o único dos seres a quem pertence a razão” e continua abordando os sentidos.

Segundo diferentes simbolismos teológicos, a importância da forma esférica não se refere apenas à parte física, simboliza também a interiorização harmónica de um centro-consciência (a partir do centro o campo de visão é maior) e até a conexão com um Eu Superior ou Divino.

Pelo que Platão nos diz, podemos também constatar o conhecimento da esfericidade da Terra, já comum na época grega.

Falaremos agora da natureza dos Elementos que compõem o universo:

TIMEU: “Temos de considerar a natureza do Fogo, Água, Ar e Terra e os seus fenómenos antes do universo ser criado… Em primeiro lugar, vemos que o que chamamos agora água, na nossa opinião, quando se solidifica, transforma-se em pedras e terra, enquanto que quando se derrete e se divide, se transforma, sem dúvida, em vento e ar; este converte-se em fogo quando arde, e unido e apagado de novo regressa, por sua vez, à forma de ar que, ao unir-se outra vez, se condensa em nuvem e névoa; quando estas estão mais comprimidas flui delas a água; da água, por sua vez, terra e pedras e, desta maneira, sucedendo-se como um círculo, se geram, pelo visto, uns e outros”.

Desta forma Platão fala de um único Elemento, cuja forma de manifestar-se muda. Poderíamos dizer que tudo é fogo (Espírito), que se manifesta com um nível maior ou menor de densidade (Matéria).

TIMEU: “Tenho porém de esforçar-me mais para falar de novo sobre este assunto, de uma forma mais clara. Se alguém que tivesse feito figuras de ouro, não deixasse de transformar cada uma em todas as demais, ao assinalar alguém alguma delas e perguntar o que é que é, o mais próximo da verdade seria dizer-se que é ouro”.

Então, o que muda é a aparência, que se transforma de uma em outra. O mesmo sucede com os quatro Elementos, não são mais do que formas diferentes do único Elemento.

Continua a falar do nascimento do universo:

Platão. Dominio Püblico

TIMEU: “Apresento aqui, em breves palavras, as conclusões do meu discurso: existe ser (pai), espaço (mãe) e devir (filho): os três existem individualmente antes do universo… Quando (o Demiurgo) se dispôs a organizar o universo, dotou primeiramente de forma e número o Fogo, Água, Terra e Ar… Em primeiro lugar, é de todo evidente que o Fogo, a Terra, a Água e o Ar são corpos. Toda a figura do corpo tem também profundidade”.

A primeira figura geométrica fechada é o triângulo, expressão da tríade referida anteriormente. Quando o universo visível nasce a profundidade aparece, aparece um quarto elemento. Esta profundidade obtém-se por combinação de triângulos, ou seja, os corpos geométricos, que vão simbolizar os quatro elementos, obtêm-se quando se combinam diferentes triângulos no espaço.

TIMEU: “É preciso explicar agora como seriam os quatro corpos mais belos, distintos uns dos outros, mas que ao destruir-se poderiam nascer uns dos outros… os quatro elementos nascem dos triângulos que determinamos anteriormente: três procedem de um que tem os lados desiguais, o quarto é o único a partir do triângulo isósceles (Terra)”.

Os chamados sólidos platónicos ou os corpos dos elementos, formam-se da seguinte maneira:

TIMEU: “Demos então a figura cúbica à Terra, pois dos quatro elementos é o que menos se move e o que está em melhores condições para moldar e é extremamente necessário que o elemento com os lados mais firmes seja de tal classe. A base mais firme dos triângulos que estabelecemos no início é, por natureza, a dos lados iguais, mais do que a que os tem diferentes, e o tetrágono (quadrilátero), composto de cada lado por uma superfície plana equilátera, é necessariamente mais estável que o triângulo equilátero (cada quadrado é formado pela união de dois triângulos isósceles). É por isso que conservamos o discurso verosímil ao atribuir essa figura à Terra e, por sua vez, a que pior se move a Água, a que melhor o faz o Fogo e a que está no meio o Ar, do mesmo modo, a de corpo menor o Fogo, a maior à Água, e a intermédia o Ar; e também o mais agudo o Fogo, o segundo o Ar e o terceiro a Água”.

Modelo do Sistema Solar de Kepler, constituído pelos sólidos platônicos a partir do Mysterium Cosmographicum (1596). Public Domain

Por outras palavras, o tetraedro, símbolo do Fogo, é a figura que tem a menor superfície, a que melhor se move, é a mais cortante e a mais leve (uma vez que se compõe do menor número de partes iguais). O octaedro, símbolo do Ar, deve ter isto mesmo em segundo lugar e, de forma semelhante o icosaedro, símbolo da Água e o cubo, símbolo da Terra.

TIMEU: “Ainda havia uma quinta estrutura e Deus utilizou-a para pintar o universo.”

Esta quinta estrutura refere-se ao quinto Elemento (Éter). Diz Platão que o universo foi construído pelo Logos manifestado tomando como modelo o dodecaedro. Este quinto Elemento é mais outra aparência do Elemento único, que se revela em formas diferentes, mas que não deixa de ser uno, como o universo.

Segundo Helena Blavatsky, o quinto Elemento (Aíthēr) é a síntese dos outros quatro; é o Ākāśa dos Hindus, contém em si mesmo os germes da Criação universal, é o Caos primordial, é o Agente universal ao qual se devem todas as manifestações de energia nos mundos material, psíquico e espiritual, o Anima Mundi, e tem uma parte material (Éter), como os restantes Elementos, ainda que até agora, nenhum dispositivo físico tenha podido descobri-lo porque ainda é semi-material, mas posteriormente será visível no ar e depois manifestar-se-á plenamente.

Este conceito é o mesmo que é reflectido no deus egípcio Nun ou na Deusa Neith. Semelhante ao conceito de «Pai-Mãe» das estâncias da Doutrina Secreta, o Svabhāvāt dos Budistas do Norte ou a Mãe-Virgem, que aparece em todas as religiões.

Como podemos observar, todos os sólidos platónicos se podem decompor em diferentes triângulos ou, o que é o mesmo, podem formar-se combinando estes triângulos. O que nos fala da importância dessa figura geométrica e de um universo ordenado, hierárquico e matemático.

Segundo o famoso físico do século XX, Werner Heisenberg, o ponto de vista de Platão seria o que mais se assemelha ao que diz a Física moderna: “… Platão estava certo ao acreditar que finalmente, no coração da natureza, entre as unidades mais pequenas da matéria, podemos encontrar simetria matemática.” (Werner Heisenberg, A Lei Natural e a Estrutura da Matéria). Mostramos de seguida os sólidos platónicos e sua decomposição em figuras geométricas planas: triângulos, quadrados e pentágonos. Curiosamente, tanto os quadrados quanto os pentágonos podem ser divididos em triângulos.

Página do Harmonices Mundi de Kepler com referência aos sólidos platónicos de Kepler. Public Domain

Os 5 Sólidos Platónicos

Platão prossegue falando sobre o móvel e o imóvel e descreve as faculdades do homem, desde as percepções comuns até à adivinhação. Continua com as enfermidades do corpo e passa às enfermidades da alma.

TIMEU: “Há que reconhecer-se que a falta de entendimento é uma enfermidade da alma que tem duas classes, a loucura e a ignorância. A tudo o que origina qualquer um destes estados temos de chamar-lhe enfermidade e considerar que os prazeres e sofrimentos intensos são as enfermidades maiores da alma”.

Platão considera que a falta de entendimento é uma enfermidade da Alma e que esta falta de entendimento pode manifestar-se como loucura ou como ignorância. Considera também que o excesso de dor ou prazer obnubila o raciocínio e, portanto, pode converter-se em enfermidade, não sendo voluntários os actos por ele provocados, sendo devidos à enfermidade contraída.

TIMEU: “Na verdade quase tudo o que está relacionado com a falta de domínio dos prazeres e a reprovação se diz voluntariamente que está mal, não é correcto; pois ninguém é mau por vontade própria; um mal faz-se por uma má disposição do corpo e uma educação incorrecta e, apesar de tudo é abominável e não intencional”.

Isto recorda-nos da filosofia oriental, que muito nos fala da independência do sábio tanto do prazer quanto da dor. E enfatiza a importância da boa disposição do corpo, e da educação, para o desenvolvimento do ser humano. Para Platão, a pior das enfermidades é a ignorância. Dá então conselhos sobre como tratar o corpo e a alma:

TIMEU: “Quem se entrega ao estudo ou realiza intensamente alguma actividade na qual a inteligência participa, deve entregar-se também ao exercício do corpo praticando ginástica, enquanto quem cuida do seu corpo com grande esmero, deve compensar esta actividade com o cultivo da alma através da música e de toda a filosofia, para ser chamado, por sua vez, belo e bom, de forma justa e correcta”.

Platão mostra-se bastante actual quando nos fala do uso dos medicamentos:

TIMEU: “Quando se elimina (a enfermidade) com medicamentos antes da duração que lhe corresponde, originam-se frequentemente numerosas e consideráveis enfermidades das insignificantes e poucas que eram. Por este motivo é necessário, na medida em que haja tempo, tratar todas estas doenças com regimes, porém não provocar o mal ingrato com medicamentos”.

Deterioração

É interessante como diz “na medida em que haja tempo”. Isto é, reconhece que os medicamentos são por vezes necessários, mas não é bom abusar deles; utilizar quando possível remédios naturais. 

Para terminar, é interessante ver como Platão expressa a ideia de que cada ser humano vive no seu próprio mundo, consciente apenas do que provoca o seu interesse, deixando de lado aquilo que não lhe interessa e que não tem, portanto, existência para ele.

Esta subjectividade chega ao ponto de ter ou não ter consciência da própria imortalidade e, portanto, de poder ou não vivê-la.

TIMEU: “Aquele que se dedicou ao desejo e à rivalidade e se lhes entregou em pleno, gera necessariamente opiniões mortais e torna-se completamente mortal, na medida em que seja possível, e não o descuida porque se dedicou a isso. Aquele que se entrega activamente ao conhecimento e aos pensamentos verdadeiros e os põe frequentemente em prática nas suas tarefas, necessariamente pensa no imortal e no divino, no caso de alcançar a verdade e na medida em que esteja permitido à natureza humana participar na imortalidade, que não abandone esse aspecto e, uma vez que se importa com o divino que possui tendo bem disposta a divindade tutelar que habita nele (alma), ele deve ser antes de tudo feliz”.

Platão explica-nos o Universo, os Deuses, a Natureza e o próprio Homem, para que sejamos capazes de “recordar”, para que sejamos capazes de alcançar a harmonia dentro de nós mesmos e dentro do universo ao qual pertencemos. Deste modo, viveremos felizes e com boa saúde, porque, ao fim e ao cabo, a doença não é mais que uma falta de harmonia.

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